Operação
Triunfo
Há mais de 4 anos que escrevo na revista 30 DIAS tendo como
tema um disco, recente ou antigo. Creio que é tempo de mudar
por duas razões. Primeiro porque do hábito à
rotina vai um pequeno passo que há que evitar a todo o custo.
Depois porque, embora sempre tenha usado um tom de crónica,
inevitavelmente ao falar de um disco fico com um perfume de crítico,
em cuja pele, mesmo que por mim repetidamente rejeitada, nunca me
senti bem.
O título sob o qual passo a escrever a partir de hoje dá-me
a liberdade de falar sobre a música do presente ou de contar
histórias por mim vividas ao longo de uma carreira de mais
de 30 anos ou até, em caso excepcional, falar de algum disco,
desde que a minha consciência não me acuse de ter traído
os votos de anti-crítico.
Hoje vou tecer algumas considerações sobre a recentemente
terminada «Operação Triunfo», um programa
que me fez quebrar um jejum (uma greve de fome) de televisão
que pratico de há uns anos a esta parte.
Excelente trabalho de produção, bons professores, músicos
competentes a trabalhar na retaguarda, um lote de candidatos que dificilmente
poderia ser melhor num país com as nossas carências de
educação musical, enfim, tudo se conjugava para um programa
quase perfeito. Mas com a porta de entrada recheada de coisas boas
deixou-se a facilidade entrar pela janela.
Primeiro erro - O choradinho em que desaguavam todas as conversas
com os candidatos eliminados, transferindo um desejado ambiente de
uma escola de profissionais para um «reality show» a contra
gosto, e substituindo as questões inerentes a uma profissão
exigente por erupções de carácter passional.
Segundo erro - O ambiente de anglo-saxonização parola
que grassa por grande parte do país não foi evitado,
e o pequeno espaço dado à música portuguesa -
onde deveria ter sido implementado um trabalho de recriação
mais do que de cópia - empurrou alguns candidatos potencialmente
criativos para um papel de macaquinhos de imitação.
Terceiro erro - O público a votar, colaborando na decisão
de quem fica e quem chumba. Alguém admitiria um exame de matemática
decidido por plebiscito? Ou uma prova para atribuição
de carta de condução feita num estádio e decidida
por aclamação? A opinião do público é
importante quando o profissional, depois de preparado, começa
a exercer a sua actividade, não enquanto o aluno cumpre o processo
de aprendizagem. Aliás o júri teve, por mais de uma
vez, de emendar os previsíveis erros de decisão do público,
arrastando o programa para o ambiente de engodo em que se procurava
convencer o espectador de que estava a decidir qualquer coisa.
Em suma, sobre uma base de grande profissionalismo trabalhou-se com
um amadorismo planeado para aumentar o «share». Creio
que não foi ganho este objectivo e perdeu-se a oportunidade
de um grande e pedagógico programa musical.
A música
de pano do pó
A primeira vez que me apresentei em concerto público - exceptuando
os concertos anuais de alunos no Conservatório de Música
do Porto - foi como pianista da Orquestra de Tangos do Orfeão
Universitário do Porto. O acontecimento deu-se em Chaves, num
teatro a abarrotar, havendo inclusivamente público sentado nas
partes laterais do palco.
Sabendo que os solos de piano podiam arrancar aplausos eventualmente
revertíveis em atenções especiais das meninas da
assistência, preparei-os esticando ao máximo a minha técnica
pianística. É que, para mais, depois do concerto havia
recepção e baile, o que trazia uma valorização
extra a um eventual prémio de popularidade.
O primeiro tango, apesar de um solo de piano recheado de escalas invulgares
e harpejos simétricos, teve de esperar pelo final em tutti para
a reconfortante salva de palmas.
No segundo, o célebre UNO TANGO, uma série de rápidas
oitavas a duas mãos, que exibiam toda a destreza dos meus pulsos
bem treinados, não teve melhor sorte, mostrando-se incapaz de
levar o público a gastar antecipadamente alguns dos aplausos
que inevitavelmente coroariam o último compasso.
No solo do terceiro e último, o indefectível LA CUMPARSITA,
a direcção da orquestra não me tinha permitido
inventar nada de novo, porque tinha de obedecer ao formato tradicional,
castiço, e por isso ataquei-o sem qualquer esperança de
que me elevasse à notoriedade. Terminava com um glissando ascendente
seguido de outro descendente, pausa, e entrava o tutti para o final.
Pois não querem ver que estes glissandos, que qualquer empregada
de limpeza consegue fazer com o auxílio de um pano do pó,
arrancaram uma esfuziante salva de palmas, enquanto uma voz, atrás
de mim, dizia em comentário - ena pá, o gajo toca!
Esta experiência tenho-a relembrado centenas de vezes ao longo
da minha vida de músico, sempre que a tentação
do efeito fácil me bate à porta. Os «glissandos»
barulhentos e teatrais podem ser a porta de entrada para um sucesso
rápido, mas são-no também para um caminho descendente
e escorregadio do qual dificilmente nos livramos quando descobrimos
que não conduz a parte nenhuma.
Uma palhinha
na engrenagem
O Festival da Canção da Eurovisão (Eurovision Song
Contest) teve, ao longo dos seus 47 anos de existência, altos
e baixos, sendo que os pontos mais altos coincidiram, quase sempre,
com a tentativa de fuga à standardização. Em 1975
participei no Festival como orquestrador e chefe de orquestra da canção
portuguesa, uma composição de grande qualidade de José
Luís Tinoco para a voz de Duarte Mendes que, além de um
excelente cantor, também era um capitão de Abril. «Madrugada»
era o nome da canção que representou a RTP num dos festivais
mais fracos e comercialões, realizado a partir da Suécia.
O título da canção vencedora, «Ding-a-dong»,
é já por si um tanto desanimador.
Pouco depois de chegar a Estocolmo tomei conhecimento da existência
de um animado Festival Alternativo, que tinha lugar todas as noites
em diversos pontos da cidade, onde participavam muitos dos melhores
músicos nórdicos, e que se opunha ferozmente aos intuitos
exclusivamente comerciais para os quais o Festival da Eurovisão
se deixava arrastar.
Com grande aflição do ‘staff’ da RTP eu passava
a maior parte do meu tempo com os músicos participantes nesse
festival, escapando-me só para cumprir as minhas obrigações
profissionais nos ensaios da nossa representação. Essa
aflição foi ao rubro quando me viram aparecer na TV sueca,
ao lado de músicos dirigentes do movimento contestatário,
a prestar declarações de crítica aos objectivos
perseguidos pelo Eurofestival.
Dois dias antes do espectáculo, o presidente da Câmara
ofereceu uma luxuosa recepção aos participantes no festival.
Traje de cerimónia, convites limitados e uninominais e passagem
por uma forte segurança com polícias em grande profusão
eram condição para acedermos a um majestoso edifício
apalaçado.
Estávamos a terminar o ‘welcome-drink’ quando um
casal jovem, ele de smoking onde arrumava mal o seu porte atlético,
ela, linda, com um vestido comprido feito de retalhos diversos cosidos
em artístico desalinho, subiu para um estrado destinado à
orquestra e iniciou uma performance em que ele fazia de empresário
tirânico e ela de cantora debutante que lhe oferecia tudo o que
ele quisesse para ir cantar ao Eurofestival. A cena prolongou-se por
cerca de 20 segundos, tempo que demoraram dois polícias enormes
para os agarrar e arrastar para longe da consternada assistência.
Durante os três dias que permanecemos em Estocolmo a conversa
de todos os encontros era sobre a curta e fulgurante actuação
daqueles dois actores de uma renomada companhia de teatro de vanguarda
sueca. As conversas sempre terminavam com a pergunta: como é
que eles tinham conseguido dois convites para uma recepção
tão cuidadosamente controlada?
Até hoje nunca se soube, mas o segredo vai ser quebrado. Fui
eu que me apoderei dos convites destinados a dois membros da comitiva
nacional que, por razões que não recordo, estavam impossibilitados
de ir à recepção, e armei uma pequena confusão
à entrada para distrair a atenção dos seguranças
que controlavam os convites.
Durante uns anos eu e os dois actores trocámos cartas com uma
certa assiduidade, e depois a distância foi apagando a ténue
ligação de cumplicidade tecida com um episódio
que talvez não tenha servido para nada, a não ser para
eu vo-lo contar agora.
Uma gargalhada revolucionária
Nos primeiros meses de 1975 o PREC (processo revolucionário
em curso) estava ao rubro e o GRUPO OUTUBRO, que eu formara juntamente
com o Carlos Moniz, a Maria do Amparo, o Alfredo Vieira de Sousa e
a Madalena Leal, não tinha mãos a medir, correndo o
país de norte a sul para actuar, à borla ou com cachets
pouco mais que simbólicos, em espectáculos onde as pessoas
se juntavam ansiosas de sentir o calor de um colectivo. A necessidade
de comunicação que varria o país levava públicos
numerosos e interessados para junto dos palcos, tradicionais ou improvisados,
onde os discursos, as declamações, as cantigas, se fundiam
numa festa de características inovadoras.
Eram tempos em que não se faziam canções de meias
palavras nem se planeavam carreiras artísticas. O país
precisava de todos e nós precisávamos de conhecer o
país.
Em Maio fomos actuar num espectáculo organizado pela Intersindical
em Évora, no teatro Garcia de Resende. A sala estava à
cunha e o ardor revolucionário sentia-se no ar com uma espessura
quase física.
Os nossos filhos, que na altura andavam entre os dois e os cinco anos,
habituados a estas lides, sentavam-se com os seus brinquedos no fundo
do palco enquanto nós actuávamos à boca de cena.
A nossa disposição era de pé, em linha, com dois
microfones para cada um. No meu caso o microfone superior captava
a voz e a flauta enquanto o outro, à altura da cintura, captava
a viola acústica.
Estávamos no intervalo entre duas canções e enquanto
alguns de nós corrigíamos a afinação do
seu instrumento o Alfredo, que era de nós cinco o que tinha
a palavra mais escorreita e o discurso mais organizado, apresentava
a canção seguinte, enquadrando-a social e politicamente,
e fornecendo pistas para amplificar o seu significado. A sala ouvia-o
atentamente fantasiando novos avanços na revolução.
Para além de um ou outro agitar de um pano vermelho sobrante
do aplauso à canção anterior o silêncio
era total e denso.
E foi então que o meu filho, vindo do fundo do palco em passinhos
curtos e hesitantes, chegou ao pé de mim e, após dois
puxões na minha calça para me chamar a atenção
e com a boca a escassos centímetros do microfone da viola disse:
- Papá, quero fazer xixi.
Pelo menos ali a revolução teve de ser adiada umas horas,
tempo necessário para que se extinguissem os efeitos da sonora
gargalhada em que a assistência, tensa e preocupada, deixou
dissolver os seus problemas.
A primeira
vez que ouvi a Maria João Pires
A primeira vez que vi e ouvi a Maria João Pires a tocar
foi em 1967. Tinha eu acabado de emigrar para Lisboa, transferindo-me
da Faculdade de Engenharia do Porto para o Instituto Superior Técnico,
já sem grande crença de vir a terminar o curso de Engenharia
Mecânica, uma vez que acabara de ingressar no QUINTETO ACADÉMICO,
um conjunto pop-rock decidido a apostar na profissionalização.
Ainda no Porto, já me tinham chegado notícias de que uma
miúda da capital, saída há pouco do Conservatório,
dividia as opiniões dos críticos e entendidos, uns dizendo
que viria a ser, sem dúvida, uma pianista “competente”,
outros afirmando que ela possuía a marca rara do génio.
Dizia-se também que tinha as mãos muito pequenas o que
lhe traria limitações intransponíveis a uma eventual
carreira internacional.
Picado pela curiosidade provinciana de quem, como eu, ainda se movia
com dificuldade no ambiente hostil de uma Lisboa para onde me transferira
contra a vontade da família que, em represália, me retirara
todos os apoios, dirigi-me ao Teatro Tivoli, na antevéspera do
concerto, para comprar um bilhete.
Tudo esgotado. Mostro a minha carteira, ainda provisória, de
músico profissional, o meu cartão de ex-aluno do Conservatório
do Porto, o de aluno do IST… nada a fazer.
Nos dois dias que me restavam ainda tentei algumas cunhas mas as poucas
âncoras que eu tinha tido ocasião de lançar desde
que aqui chegara eram frágeis e ineficazes.
No dia do concerto, uma hora antes do começo, postei-me ao lado
da porta dos artistas à espera de um milagre. Meia hora depois
ele aconteceu: aparece um violinista que tinha andado comigo no Porto.
Um abraço, que fazes aqui, toco na Sinfónica e tu, quero
ouvir a Maria João e não arranjei bilhete por isso não
te largo deixa-me levar o teu violino e entrar de braço dado
contigo, e depois se eu me lixo que ainda nem sou efectivo, não
te lixas nada são só dez metros até à porta
para o ‘foyer’ e depois não me vês mais, então
vamos lá.
Uns minutos depois eu passeava-me nos corredores do Tivoli, com esperança
de que houvesse gente em pé que me permitisse esconder a minha
condição de “penetra”. Felizmente foi isso
que aconteceu, e facilmente me arrumei ao fundo da plateia, (in)comodamente
encostado à parede.
O concerto iniciou-se com uma curta peça para orquestra que a
minha memória apagou por irrelevante. Seguia-se o esperado Concerto
de Mozart, salvo erro o 26. Vieram dois funcionários que recolocaram
e abriram o Steinway, uma parte da assistência aproveitou para
tossir, e o maestro voltou a entrar no palco, trazendo atrás
uma menina cujo ar frágil e de quem não tinha nada a ver
com aquilo me fez pensar que seria a “vira-páginas”.
Com grande espanto meu, por entre os aplausos que eu julgava endereçados
à reincidência do chefe de orquestra, a menina, após
um quarto de vénia, sentou-se ao piano, agitou brevemente umas
mãozinhas de criança e pousou-as no regaço olhando
para o maestro. Senti-me invadir por uma sensação de pânico.
Como é que ela ia aguentar três andamentos de um Mozart
sujeito à pressão de uma tão grande expectativa.
Aguentei quase sem respirar a introdução da orquestra
até que as mãos quase infantis começaram a brincar
com o teclado.
Cinco minutos
depois eu tentava esconder dos meus vizinhos as lágrimas que
teimavam em saltar-me dos olhos. Nos breves segundos que separaram
o primeiro do segundo andamento uma senhora que se encostara ao meu
lado perguntou-me num sussurro - está a sentir-se mal? - ao
que eu lhe respondi com outro sussurro - não, pelo contrário,
há muito tempo que não me sentia tão bem.
Uma ou outra lágrima que me sobrou daquele concerto veio humedecer-me
os olhos em muitos dos mais de cem concertos da Maria João
a que desde então assisti. Talvez um dia ela leia esta minha
memória e se sinta, durante uns momentos, reconfortada com
a leitura. Tem todo o direito a isso.
A pega de
cernelha
No princípio dos anos 70 trabalhei muito em espectáculos
organizados pelo Marques Vidal, um dos mais activos empresários
de Lisboa.
Eram geralmente espectáculos com diversos artistas, que encerravam
com uma “primeira figura”, e que tinham uma particularidade;
os ensaios eram quase inexistentes quando não totalmente postos
de lado. A situação mais comum era eu estar no palco sentado
ao piano, ouvir o apresentador anunciar o próximo artista, cujo
nome por vezes eu nem entendia porque não tinha monição,
o cantor ou cantora entrava, passava por mim e entregava-me a parte
de piano, e eu tinha aqueles momentos até que ele ou ela chegasse
ao microfone e anunciasse o que ia cantar para passar os olhos pela
partitura. Depois era um excitante exercício de leitura à
primeira vista com o picante extra de ter uns milhares de pessoas a
assistir.
Lembro-me de um espectáculo na praça de touros de Montijo
que terminou da maneira mais inesperada e hilariante.
Foi em pleno Verão, a meio da tarde, e nós actuávamos
no centro da arena, de modo que eu tinha o meu piano Fender abrigado
por um guarda-sol aos gomos azuis e brancos com berloques azuis, única
protecção que se encontrou para evitar que o instrumento
fosse derretido pelo sol violento.
Quem encerrava o espectáculo, já para o fim da tarde,
era o Tony de Matos, que terminaria a sua actuação com
«O destino marca a hora», grande sucesso do momento.
O acompanhamento era feito por um trio onde, além de mim, estavam
o Thilo Krassmann na viola-baixo e o Vítor Mamede na bateria.
Todos líamos pela partitura única que era colocada sobre
o meu Fender Rhodes.
Com o aproximar do fim da tarde começou a levantar-se uma brisa
que ameaçava levar a partitura. Apanhei do chão umas pedrinhas
e coloquei uma em cada canto da folha. Mas cedo a brisa passou a vento
ligeiro, e mais algumas pedras tiveram de vir ajudar as primeiras. Quando
chegou o ‘grand finale’ com o Tony e o seu «O destino
marca a hora» o papel já estava crivado de pedras que tapavam
uma parte considerável da música mas… nem assim
resistiu, e a meio da canção uma rabanada de vento mais
forte arrastou a partitura para longe de nós. Eu parti em sua
perseguição deixando o Thilo e o Vítor a fazerem
o acompanhamento possível ao Tony que tentava, lançando
mão de todos os seus trunfos de grande artista que indubitavelmente
era, manter o público agarrado.
À primeira tentativa de recuperar a folha de música fui
fintado por uma rajada de vento que a lançou para mais uns metros
de distância. Isto repetiu-se mais duas ou três vezes até
que finalmente, lançando-me em voo, consegui cair de lado sobre
a partitura agarrando-a contra o peito. Em plena praça de touros
eu tinha acabado de conseguir uma difícil pega de cernelha, que
me valeu a mais estrondosa salva de palmas da tarde.
Ao longo de muitos anos de convívio e trabalho foi esta a única
vez que vi o Tony de Matos zangado. O facto é que eu, involuntária
mas definitivamente, tinha-lhe dado cabo da actuação.
A música
e o barulho
O desenvolvimento
acelerado de novas tecnologias tem sido a mais fascinante realização
humana das últimas décadas. Com repercussões
em todas as actividades reflecte-se também, e de que maneira,
no campo da música, quer no sector da sua criação
quer no do consumo. A crescente importância da música
nos tempos que correm, no aspecto cultural como no económico,
deve-se a diversos factores mas fundamentalmente ao desenvolvimento
tecnológico, que veio permitir, pela primeira vez na história,
que o som fosse transportado e amplificado.
A amplificação sonora trouxe novidades como a possibilidade
de um cantor sussurrar sobre um tutti de uma orquestra sinfónica
ou um quarteto de cordas tocar para 300.000 espectadores, constituindo
uma das mais poderosas armas para a expansão e democratização
da música.
Mas, como todos os mecanismos de poder, sendo benéfico quando
bem utilizado, torna-se perigoso quando não cai em boas mãos.
Assim a amplificação sonora, quando usada descontroladamente
ou, pior ainda, com intenções pérfidas justificadas
por um ilícito espírito comercial, transforma-se numa
arma de agressão capaz de perverter a mais bem intencionada
produção musical.
O meu primeiro contacto com a moda doentia do som tudo-no-máximo
deu-se em 1968 no Marquee Club de Londres, o então mítico
clube onde eram lançadas as futuras estrelas do rock and roll
britânico. Após assistir a meia hora de um concerto de
um grupo desconhecido (na altura) que dava pelo nome de Ten Years
After, saí para a rua aturdido e à beira do pânico
porque os automóveis passavam por mim e eu só lhes sentia
a trepidação mas não ouvia o som dos motores.
Demorei cerca de meia hora a reaver a totalidade da minha audição
e a recuperar do susto.
Desde então tenho saído a meio de numerosos concertos
onde o trabalho que os músicos produzem em cima do palco é
destruído pelo som demasiado alto ou por erros do técnico
de som, que utiliza mal a poderosa arma que é a mesa de mistura
à sua frente.
Lembro-me dos Wheather Report, nos anos 80, no pavilhão da
antiga FIL e, uns anos depois, dos Brecker Brothers no pavilhão
Carlos Lopes. Dois concertos que eu aguardei com ansiedade e onde
a conjugação de uma acústica deficiente com o
som exageradamente alto tornava impossível entender o que os
músicos tocavam. No caso dos Brecker Brothers estive presente
no sound-check e conversei com o Randy Brecker, avisando-o para a
necessidade de o som não estar demasiado alto, caso em que
a deficiente acústica do pavilhão “embrulharia”
o som todo. Ele foi avisar o produtor que argumentou que depois, com
a sala cheia, ficava tudo melhor. Ainda o avisei de que no caso daquela
sala essa melhoria era imperceptível, mas o todo-poderoso produtor
manteve a sua opção “comercial” e o concerto
transformou-se num tormento ao qual eu pus fim com a minha saída
da sala.
Mais recentemente um concerto, potencialmente fabuloso, do Pat Metheny
na Aula Magna foi destruído por um técnico de som que
exagerou nos agudos e no volume, recambiando-me prematuramente a caminho
de casa.
Ainda há poucas semanas o Robbie Williams teve diversos momentos
do seu espectáculo no Pavilhão Atlântico meticulosamente
estragados por um operador de som que, possivelmente com umas cervejas
a mais, destruía com dois ou três movimentos dos seus
dedos centenas de horas de trabalho dos excelentes músicos
que davam o seu melhor em cima do palco.
Deixo para outra altura a abordagem do crime cometido em muitas discotecas
com níveis sonoros ilícitos e, em muitos países,
ilegais, que atingem frequentemente índices que podem provocar
lesões auditivas irreversíveis
Concorrer
para não ganhar
Muitas vezes me perguntam por que nunca ganhámos um ‘Eurovision
Song Contest’, entre nós chamado de Eurofestival. Em
vez de responder directamente, com uma argumentação
que, como todas as argumentações, pode sempre ser rebatida,
prefiro contar a minha última experiência nestas andanças
deixando as conclusões a cargo de cada um.
Em 1996 concorri ao Festival RTP da Canção com «O
meu coração não tem cor», que tinha letra
do José Fanha e foi interpretada pela Lúcia Moniz. Ganhámos
o Festival e bilhetes para Oslo, onde se realizaria o Eurofestival
desse ano.
As duas tarefas mais importantes que se nos deparavam eram, como em
todos os espectáculos, a produção e a promoção.
Enquanto que a produção era fundamentalmente gerida
por nós, os autores e intérpretes, a promoção
era da responsabilidade da RTP. Aí começaram os problemas.
Dentro do espírito que, entre nós, tradicionalmente
impera na administração pública, os cortes orçamentais
começam pela actividade artística. Assim, de toda a
publicidade que se pode fazer num caso destes e que passa por anúncios
em revistas internacionais da especialidade, CDs de promoção,
tournées de apresentação do artista etc., o único
passo dado pela RTP foi a distribuição pelos países
aderentes à Eurovisão de um vídeo-clip, até
porque este era obrigatório pelo regulamento. Mesmo aqui, enquanto
países em grande dificuldade como a Bósnia e a Letónia
apresentaram vídeo-clips de grande produção,
nós mandámos… a gravação da canção
feita durante o Festival RTP da Canção. Era a solução
mais baratinha e menos eficaz.
Salto aqui as peripécias ocorridas até à nossa
partida, para contar duas das muitas por que passámos em Oslo,
por me parecerem ainda mais reveladoras.
A semana de ensaios de um Eurofestival atrai uma multidão de
jornalistas da especialidade, oriundos de todos os países participantes,
cuja atenção tem de ser conquistada, porque as suas
notícias são um eficaz meio de persuasão junto
dos júris que irão votar na grande noite. Para quem,
como nós, não tinha meios financeiros, havia um ponto
fulcral da promoção, que era a conferência de
imprensa oficial que sucede ao primeiro ensaio geral. Chegámos
a essa conferência sem um CD, uma cassete, um desdobrável,
um ‘press release’, uma foto da cantora ou uma garrafa
miniatura de vinho do Porto. Safou-nos a Lúcia com uma ideia
genial: puxando do seu cavaquinho, disse que, uma vez que não
tínhamos nada para lhes oferecer, iríamos dar a única
coisa que possuíamos. E demos-lhes música.
Na esperada noite do festival, e devido ao facto de as roupas terem
chegado poucas horas antes da sua realização, a Lúcia,
que era suposto dançar, não pôde fazê-lo
porque a presilha de um dos sapatos partiu-se e não foi possível
substituí-la, pelo que ela foi obrigada a “arrastar a
chinela” (tive de ir eu pedir ao realizador que não a
focasse a entrar no palco), enquanto uma das cantoras do coro teve
de actuar com a blusa por fora da saia que, tendo chegado com dois
números abaixo do devido, era impossível de apertar
sem que a impedisse de respirar convenientemente.
Tudo isto, e o mais que aqui não conto, ganha um significado
especial se atendermos a que foi com esta canção que
Portugal conseguiu a melhor classificação de sempre.
As tropelias
de um quarteto
Em 1971 foi à cena no Teatro Vilaret uma interessante comédia
musical - O ANIVERSÁRIO DA TARTARUGA - com a Florbela Queirós
e o Rui de Carvalho, em que foi utilizada, ao que julgo pela primeira
vez entre nós, uma mistura de música gravada com música
ao vivo. Os naipes de corda e de metais estavam gravados em fita magnética
e a secção rítmica, constituída pelo Thilo
Krassmann na viola-baixo, eu no órgão, o Fernando Correia
Martins na guitarra eléctrica e o Vítor Mamede na bateria,
tocava ao vivo, sincronizando-se através de auscultadores onde
era ouvida uma pista de contagem.
Nós actuávamos no fosso de orquestra, que era suficientemente
fundo para só sermos vistos da plateia quando nos levantávamos.
O facto de tocarmos todas as noites a mesma coisa sem o olhar motivador
do público criava uma sensação de monotonia para
a qual cedo encontrámos um antídoto. Noite após
noite íamos inventando uma partida nova em que um de nós
se tornava vítima do conluio dos outros três. Aqui ficam
alguns exemplos das nossas ‘performances’.
Uma delas, que foi repetida várias vezes, era preparar o banco
da bateria armando os parafusos apenas com um leve encosto, de modo
que, quando o Vítor se sentava para a abertura, ficava praticamente
sentado no chão. Uma vez o mesmo tratamento foi aplicado ao
suporte da caixa, que com a primeira pancada desceu até à
altura dos tornozelos. Ou ainda encher de água um chocalho
que era usado no final do primeiro acto, e quando o Vítor pegou
nele para a sua intervenção despejou o conteúdo
nas calças.
Uma maneira de punir o músico que chegava mesmo em cima da
hora era encostar à porta de acesso ao fosso da orquestra uma
pilha de objectos que caíam sobre ele quando entrava a correr.
Lembro-me de uma noite em que me colaram as teclas do órgão
com fita adesiva transparente, de modo que quando eu pousei as mãos
para o primeiro acorde saiu um ‘cluster’ assustador.
Ou de o Vítor ter reagido ao facto de ser a maior vítima
- fado dos bateristas - pregando, ele só, uma partida aos outros
três. Uma noite trocou os cabos dos nossos amplificadores de
modo que quando começámos a tocar o meu som saía
pelo amplificador da guitarra, que por sua vez saía pelo do
baixo enquanto este se fazia ouvir no meu.
Felizmente éramos todos músicos experientes de modo
que nunca algum espectador se apercebeu deste desvios da partitura.
Nem quando, esgotada a imaginação para novas partidas,
começámos a jogar às almofadas, coisa que se
tornava particularmente difícil porque nenhuma delas podia
subir mais que a altura do rebordo do fosso, sob pena de ser vista
pela assistência.
Esta espiral de incursões no imaginário das camaratas
do colégio ou da tropa terminou na noite em que uma almofada
mal apontada veio cair na primeira fila da plateia, sendo-nos devolvida
por um espectador que, na melhor das hipóteses, interpretou
o insólito acontecimento como uma demonstração
inesperada de ‘living theater’.
Música
a preto e branco
António
Vitorino de Almeida é um dos mais brilhantes compositores portugueses
das últimas décadas, o que só tem sido (re)conhecido
por uma minoria na qual me incluo, e é um comunicador e um
agitador cultural de primeira grandeza e aí, vá lá,
tem-lhe sido feita uma relativa justiça.
Na impossibilidade de fazer ouvir aqui uma das suas muitas obras publicadas
- para isso terão de procurá-las numa boa discoteca
- vou contar uma ‘performance’ de entre as muitas a que
me foi dado assistir.
Algures nos anos 80 fizemos ambos parte de uma comitiva que se deslocou
a Luanda para as comemorações do 25 de Abril. As diversas
iniciativas culminavam com um espectáculo na noite de 25, no
Cinema Alvalade. À tarde fomos fazer o reconhecimento da sala,
um grande auditório ao ar livre, e deparámos com um
piano cujo prazo de validade já tinha expirado há muito.
Ficámos ambos preocupados e eu fiz-lhe ver que se no meu caso,
que iria acompanhar o Carlos do Carmo, ainda poderia encostar-me à
viola e à guitarra, ele, concertista a actuar sozinho, estava
metido em maus lençóis. Com o seu tradicional optimismo
disse-me que havia de conseguir inventar qualquer coisa que safasse
a sua actuação.
À noite, quando chegou a sua vez, entrou no palco, deixando-me
a mim mais nervoso que ele a espreitar pela lateral. Dirigiu-se ao
piano, hesitou, retrocedeu e contou a seguinte história.
- Há uns
anos atrás, era eu adido cultural em Viena, e num 25 de Abril
a embaixada Portuguesa organizou, como habitualmente, uma recepção
comemorativa.
Qual não foi o meu espanto quando deparei entre os convidados
com o embaixador da África do Sul (estava-se ainda em tempos
de ‘apartheid’) que me parecia a pessoa menos indicada
para uma festa comemorativa do dia da liberdade.
O meu reparo sobre o que considerava um escândalo esbarrou numas
explicações do embaixador sobre equilíbrio de
interesses e outros argumentos semelhantes.
A meio do cocktail, e dado que havia lá um excelente piano,
veio o inevitável pedido para eu tocar qualquer coisa. Após
uma recusa tão inútil quanto falha de convicção
sentei-me ao piano e toquei assim.
E dirigindo-se ao escavacado piano do Cinema Alvalade começou
a tocar a popular ‘Clair de lune’ de Beethoven. Só
que, com uma série de notas erradas, aquilo soava muito pior
do que justificaria o estado da pianola.
Após cerca de um minuto de martírio e espanto da audiência
parou de tocar, levantou-se e comentou: Soa mal não é
verdade? Foi o que eu disse à distinta audiência de Viena.
Mas acrescentei que tal facto se devia a eu, por atenção
para com o senhor Embaixador da África do Sul, estar a tocar
a sonata utilizando só as teclas brancas, evitando as pretas,
o que dava aquele péssimo resultado. Estaria no entanto à
disposição dos presentes para tocar a versão
original logo que o senhor Embaixador saísse e fosse assim
removido o risco de eu lhe ferir a sensibilidade.
Claro que Vitorino
de Almeida foi a estrela da noite. Eu fiquei para sempre sem saber
se a história era real ou inventada, o que aliás não
tem qualquer importância.
Os megaconcertos
Os concertos de
estádio, ou de uma maneira mais geral, os concertos para dezenas
ou centenas de milhar de espectadores, nunca tiveram a minha simpatia.
Poderão ser expendidos muitos argumentos a seu favor, desde
a exploração de um novo tipo de linguagem de comunicação
apoiada nos grandes recursos tecnológicos, até à
catarse inerente a uma grande multidão unificada por um objectivo
comum. Para mim o principal motivo que conduziu à proliferação
dos megaconcertos é o desejo de ganhar mais dinheiro em menos
tempo.
Para justificar esse objectivo valorizou-se a parte social - o encontro
entre pessoas - o aspecto visual com utilização de meios
electrónicos ou cenográficos que agigantam, ou pretendem
agigantar, o que se passa no palco, o simbolismo da romaria, mas tudo
isto à custa da secundarização do essencial,
a música.
A grande vantagem do concerto sobre a música gravada é
a proximidade entre o músico e o espectador que assim se vê
arrastado para uma cumplicidade e um conhecimento mais profundo da
música no próprio acto do seu nascimento. O movimento
dos dedos do pianista, o gingar do corpo do baterista ao executar
um break, o apertar de lábios do baixista ao «colar»
a nota da viola-baixo à pancada do bombo, os olhares que eles
trocam entre si para se coordenarem e motivarem são o grande
valor acrescentado do concerto «ao vivo», que não
é minimamente compensado pelos painéis de vídeo
dos mega concertos. Para ver um concerto em vídeo faço-o
em casa em melhores condições.
Um dos últimos concertos de estádio para que me arrastaram
foi o do Elton John no antigo Estádio Alvalade. Como não
tive paciência para ir duas horas antes arranjar um lugar à
frente fiquei a cerca de 120 metros do palco. O meu 1 metro e 71 foi
engolido por uma parede de jovens acima do 1 metro e 80. Pelo menos
foram gentis e mantiveram-me informado - o Elton entrou agora, os
fumos com a luz dão um efeito do caraças, é pá
o gajo está aos saltos que parece um macaco, saiu e vai mudar
de fato… ena ganda fatiota branca, vem de anjinho… estes
comentários mais a nesga de vídeo que eu conseguia apanhar
foram o espectáculo que eu «vi».
Há alguns
anos atrás, durante alguns meses da presença entre nós
de Bibi Ferreira, tive longas e fascinantes conversas com essa grande
senhora do teatro brasileiro.
Uma vez veio à baila o concerto do Michael Jackson no Maracanã
onde ela tinha estado presente. Falou-me do acontecimento com um entusiasmo
esfusiante. A excitação da espera, os grupos que se
organizavam mais ou menos espontaneamente, os delírios individuais
e colectivos, os isqueiros todos acesos os cânticos de 80000
pessoas, a energia que se adivinhava naqueles jovens todos ali reunidos.
Perguntei-lhe então como era o espectáculo, as luzes,
as figuras gigantescas insufláveis, os efeitos de pirotecnia,
ao que ela me respondeu:
Ai meu bem isso não sei, que eu estive lá para a frente
mas sempre voltada de costas para o palco.
Um momento
inesquecível
Os Festivais de Jazz de Cascais, organizados, por vezes em condições
heróicas, pelo saudoso Luís Vilas Boas, constituíram
ao longo de muitos anos um dos principais acontecimentos de agitação
cultural de um país que, ao tempo dos primeiros destes festivais,
se encontrava dramaticamente fechado sobre si próprio. No pavilhão,
velho e de má acústica, vivi, em conjunto com muitos
milhares de compatriotas, momentos inesquecíveis pela sua componente
artística como pela oportunidade de dar uma fugaz espreitadela
para o “grande mundo” que nos era sistematicamente ocultado.
Um dos momentos que mais vezes recordo passou-se em 1971. Entre as
diversas formações que vieram nesse ano contava-se o
septeto de Miles Davis, cujo pianista necessitava de um piano Fender
Rhodes. O Vilas Boas veio pedir-me que emprestasse o meu, o que não
foi possível porque tinha uma tecla partida por cuja substituição
eu aguardava há mais de um mês. Fomos então pedir
ao Marcos Rezende, o brasileiro que na altura vivia entre nós,
e que logo o pôs à disposição.
Chegados ao esperado momento do Miles brincávamos entre nós
dizendo que havia um português no palco… o piano do Marcos.
A prestação do grupo liderado pelo genial trompetista,
embora de grande qualidade, decorria um pouco morna e com algum bruaá
da assistência que não se sentia agarrada pelo espectáculo.
Até que a meio do terceiro tema, uma balada, o Miles dá
um solo ao pianista. Todos os músicos se calam e fica só
o som do Rhodes do Marcos Rezende.
A pouco e pouco foi-se fazendo silêncio no pavilhão e
rapidamente se instalou a convicção de que estávamos
perante um momento mágico do concerto. Alguém segredava
ao ouvido do parceiro do lado - quem é este gajo? - é
um Queite qualquer coisa - não é Queite é Quite
- emendava outro.
Era o Keith Jarrett, na altura um ilustre desconhecido para a maioria
dos presentes.
O solo evoluiu num lirismo comovente, com uma linguagem nova e apaixonada.
A sala quedou-se muda e suspensa da cada nota que ia saindo do Rhodes.
Foi um longo solo de alguns minutos que engolíamos avidamente.
Quando o grupo atacou a reexposição do tema pondo fim
ao solo de piano eléctrico a assistência explodiu num
aplauso imenso que se prolongou até perto do acorde final.
Atrás de mim alguém dizia - ena pá já
ganhei a noite!
O resto do concerto desenvolveu-se ao nível que era de esperar
de um grupo liderado por um dos mais importantes músicos do
século vinte mas - nisso o Miles Davis nunca largou mão
da sua vaidade quase tão grande como o seu génio - não
se ouviu mais nenhum solo do Keith Jarrett.
O primeiro
passo
Em 1955 tive a
minha primeira actuação pública remunerada, numa
kermesse organizada pelas senhoras das Antas para angariar fundos
para as obras da igreja nova. Kermesse com k, sim senhor, que a língua
portuguesa tem que se adaptar às diferenças de classe.
Depois de descontadas as despesas com o transporte e duas cordas novas
para a guitarra eléctrica do Rogério Azevedo - as de
origem já estavam ferrugentas e não davam afinação
- tocou-me um terço do remanescente, que perfazia cinquenta
e seis escudos e cinquenta centavos. À falta de amplificador
para ligar a guitarra, tive de moer a cabeça ao meu pai durante
dias, até o convencer a deixar que levássemos o rádio
Körting, com o seu imponente móvel em mogno maciço,
embrulhado num cobertor de estopa para evitar alguma arranhadela criminosa.
A bateria do Zé Tó Santos, mais conhecido por Totas
ou Stetínius, periclitante sobre as suas ferragens à
beira do colapso, exibia orgulhosamente um pedal de bombo comprado
na véspera a um músico do Paladium, que o tinha impingido
por quarenta escudos, justificados pelo glorioso epíteto de
“high speed pedal”.
O nome do grupo, criado a pedido das senhoras da organização
para apetecer mais a publicidade, era “Conjunto 3=6”.
Aproveitando o slogan do recente DKW de três cilindros a dois
tempos, simultaneamente afagava o nosso ego, que assim afirmávamos
uma qualidade avalizada por uma relação de quantidade.
A primeira mudança que a estreia operou na minha vida foi o
convite da Lena para a sua festa de anos no sábado seguinte.
Até então ela reagira com uma indiferença olímpica
a todas as tentativas de levar a relação entre nós
para além dos encontros casuais à saída do liceu.
Não tão casuais como isso, que muitas vezes tivera de
bater os pés no chão para os libertar do frio enquanto
esperava, escondido por trás da cabine telefónica, que
ela saísse da última aula, para então surgir
com ar distraído e disparar um olá logo seguido de um
por acaso até tenho de ir para os teus lados.
Um mês atrás
eu fora longamente aplaudido na audição dos alunos do
5º ano do Conservatório de Música após ter
executado as 12 variações sobre “Ah, vous dirai-je,
Maman” de Mozart, sem um único erro e, segundo a minha
querida professora Berta Alves de Sousa, com “uma interpretação
muito correcta”. Mas o sucesso tinha-se extinguido com a saída
do portão do Conservatório, enquanto na kermesse, com
quatro tangos e uma dúzia de italianadas já estava a
ser convidado para os anos da Lena.
Foi provavelmente esse convite que começou a semear-me as noites
de sonhos em que, depois de uma gloriosa actuação no
Baile do Clube Portuense, as debutantes mais apetecidas me telefonavam
a combinar uma sortida à matiné do cinema São
João.
Com os exames do sétimo ano à porta vi-me obrigado a
adiar a análise das novas emoções que me irrompiam
pela vida adentro, pondo em sobressalto a rotina confortável
do ambiente de “boas famílias” em que tinham decorrido
os meus primeiros dezasseis anos.
Mal sabia eu que,
alguns anos mais tarde, o desenvolvimento provocado por esta experiência
ia levar-me a, contra o desejo unânime da minha família,
abraçar a carreira de músico profissional, decisão
da qual nunca me arrependi.
Clássico
vs ligeiro
Em 1989 abracei
um dos projectos mais ambiciosos da minha carreira: a produção
de um espectáculo com três dos mais prestigiados artistas
do nosso panorama musical. O Fernando Tordo, o Carlos Mendes, o Paulo
de Carvalho e eu planeámos elaborar um concerto em que desfilariam
as memórias colectivas juntamente com algumas canções
inéditas. Cada um de nós tinha mais de 20 anos de carreira
que atravessavam períodos de grandes mudanças e isso,
pressentíamos nós, se fosse eficazmente passado para
cima de um palco resultaria num espectáculo de êxito
seguro.
A diversidade dos três cantores enriquecida com a experiência
comum, uma vez que as suas actividades se tinham cruzado mais de uma
vez, era uma garantia de solidez do projecto.
Escolhido o título “Só Nós Três”
passámos a discutir a formação instrumental que
lhe serviria de suporte. Ofereciam-se à partida duas hipóteses
com características diferentes: uma formação
de 8/10 músicos onde os instrumentistas teriam grande intervenção
como solistas ou uma grande orquestra com a sua imponência mas
onde a invenção dos músicos é substituída
pela caneta do orquestrador. Estávamos mais inclinados para
a segunda hipótese quando eu lancei uma ideia – e se
fizéssemos com a Orquestra Sinfónica da RDP? Só
a orquestra, na sua formação clássica, sem qualquer
adição importada do ambiente pop/rock.
A ideia foi aplaudida e eu fui falar com o maestro Silva Pereira,
propondo-lhe que fosse ele a dirigir a orquestra, bem como com a administração
da RDP. Todos acolheram a ideia com entusiasmo. O espectáculo
seria integrado nas actividades correntes da orquestra e teria a sua
estreia no Coliseu dos Recreios de Lisboa numa configuração
inédita – seria realizado no centro da sala, com esta
montada na configuração de circo, sobre um estrado de
acrílico iluminado por baixo.
Entusiasmados, começámos a trabalhar, todos os quatro
no alinhamento das músicas e eu nas orquestrações.
Até que um dia chegaram-nos rumores de que havia músicos
na orquestra que se opunham ao projecto, porque a orquestra que era
feita para tocar música “clássica” não
deveria misturar-se com a “ligeira”.
Fui de imediato falar com músicos da orquestra mostrando-lhes
o disparate e o “fora de prazo” daquelas ideias, citando-lhes
o exemplo de orquestras bem mais prestigiadas, como a de Melbourne,
a de Boston ou a London Philarmonic, sempre abertas a experiências
deste género. Nada feito, continuava a resistência dos
numerosos músicos conservadores que achavam que uma orquestra
sinfónica se esgota na interpretação dos clássicos.
A administração da RDP garantiu que não havia
problema, que quem mandava na orquestra era a empresa e que sairia
em breve a ordem de serviço que marcava os trabalhos, incluindo
os nossos concertos.
Mas nós, depois de muito ponderarmos, e tomando em linha de
conta que nada há de pior para um concerto do que a falta de
empenhamento dos músicos, resolvemos voltar à ideia
de uma grande “orquestra ligeira”, para a qual foram,
aliás, contratados muitos dos músicos da sinfónica.
O espectáculo
“Só Nós Três” teve um êxito
retumbante.
A Orquestra Sinfónica da RDP foi extinta uns tempos depois.
Albufeira
1968
Em 1968 o Algarve começava a atrair as atenções
do turismo internacional e Albufeira era uma pequena e encantadora
vila para onde rumavam os artistas e os jovens em busca de aventura.
Duas 'boîtes', colocadas uma em frente da outra num pequeno
largo junto ao mar, monopolizavam a vida nocturna da região.
No "1900" tocava o Quinteto Académico, onde eu me
iniciava na vida de músico profissional, e comigo estavam o
Adrien Ramsy na bateria, o Jean Sarbib na viola-baixo, o Carlos Carvalho
na guitarra eléctrica e o Zé Manel Fonseca no sax. No
"7 e 1/2" actuavam os Sheiks, com o Paulo de Carvalho, o
Fernando Tordo, o Edmundo e o Fernando Chaby.
No "1900", mais virado para público de meia-idade,
tocávamos Procol Harum e Beatles, enquanto do outro lado, onde
as inglesas contratadas para dançar e animar o ambiente atraíam
a malta nova, tocava-se Stones e The Byrds.
No topo do largo, no segundo andar de um edifício de dois,
estávamos instalados nós, os músicos do Quinteto.
É fácil imaginar a intensa vida social que se cruzava
nas nossas instalações e as memórias fortes que
aqueles três ou quatro meses deixaram em cada um de nós.
Ao tempo a polícia algarvia tinha recebido firmes e salazarentas
instruções para travar os perigosos costumes de "libertinagem"
que os estrangeiros traziam da pecaminosa Europa para o nosso Portugal
pacato e respeitador. O cabo Marreiros, o polícia mais graduado
de Albufeira, tomou a peito esta missão e decretou que era
terminantemente proibido beijar em lugares públicos, e para
que o decreto fosse cumprido ele próprio passou a vigiar as
ruas, escondendo-se atrás das esquinas e das árvores,
e os bares e 'boites', camuflando-se com colunatas e repregos da decoração.
Uma das primeiras vítimas foi o nosso empresário, o
Mário Assis, que em plena pista do "1900", evoluindo
ao som do seu/nosso Quinteto Académico, esqueceu por momentos
as moralistas determinações e depositou um beijo fugidio
nos lábios da inglesa com quem dançava. Como um raio
caiu-lhe em cima o cabo Marreiros, saído de um canto escuro
da sala, e arrastou-o sob prisão para a esquadra da vila, onde
ele teve de aguardar que nós acabássemos o 'set' para
irmos interceder pela sua libertação.
No dia seguinte, reunidos em plenário de músicos e inglesas,
concluímos que era imperioso combater os inaceitáveis
desígnios policiais, e que o método mais eficaz seria
o de demonstrar à autoridade a impossibilidade de prender todos
os prevaricadores.
A partir de então todos os fins de tarde, altura em que a marreiral
vigilância invadia o centro de Albufeira, nós, munidos
cada um da sua companheira, ao aproximar do cabo da guarda iniciávamos
um ritual de beijos, castos estilo adeus prima boa viagem e cumprimentos
à tia - os que estávamos mais perto do cívico
- ou beijos mais suculentos seguidos de fuga os que nos encontrávamos
mais longe.
Ao fim de uma semana deste jogo, que já se ia tornando uma
atracção turística da terra, o cabo Marreiros
mandou-nos um recado, por via oficiosa que não lhe comprometesse
a dignidade de esbirro chefe, informando que a proibição
dos beijos iria ser suspensa mantendo-se exclusivamente em relação
a um ou outro que assumisse proporções particularmente
escandalosas.
Compreende-se que nós tenhamos festejado este acontecimento
no ‘Sir Harry's Bar’ como se fosse uma grande vitória
contra o regime decadente.
Algumas memórias
de Carlos Paredes
De 1975 a 1980 trabalhei numerosas vezes com Carlos Paredes, participando
com diversos agrupamentos em espectáculos onde ele também
estava presente, acompanhando-o à viola, juntamente com o Carlos
Moniz, ou, em experiência inesquecível, num espectáculo
no teatro S. Luís onde ele actuou com uma pequena orquestra
sinfónica dirigida por mim.
Fizemos juntos milhares de quilómetros e passámos longas
horas tocando e conversando. De tudo isto guardei uma colecção
infindável de recordações e histórias
que tenho partilhado vezes sem conta com colegas que, como eu, tiveram
a sorte de desfrutar do seu sentido de humor, finíssimo e as
mais das vezes inesperado, de coleccionar as inúmeras situações
bizarras provocadas pela sua distracção desconcertante
e, acima de tudo, de se maravilharem com o seu génio imenso.
Se tivesse de escolher um facto que melhor caracterizasse o Carlos
Paredes escolheria aquilo que tantas vezes referi em conversas a seu
respeito: desde os locais cheios de um público habituado a
ouvi-lo até às salas em países distantes onde
ele surgia perante plateias que nem o seu nome conheciam, a reacção
do público ao último acorde da primeira música
era sempre igual - todos se levantavam como que empurrados por uma
mola, aplaudindo e gritando bravos.
Uma vez, no fim do último concerto de uma série de três
consecutivos que fizemos em outras tantas cidades da Alemanha brinquei
com ele dizendo-lhe – ó Paredes, isto deve ser sempre
o mesmo público que vem atrás de si porque gritam exactamente
da mesma maneira. Com aquele seu ar meio envergonhado meio sonhador
respondeu – ó amigo (era sempre assim que iniciava uma
conversa) isso é porque eles aqui são muito bem-educados
com os artistas estrangeiros.
Sempre nervoso antes dos concertos, preocupado com as unhas de um
plástico muito resistente, difíceis de encontrar à
venda e indispensáveis para a sonoridade potente e magnífica
que arrancava do instrumento, gostava de fazer o aquecimento nas casas
de banho onde as paredes de mosaico reflectiam o som permitindo-lhe
um melhor controle da técnica. Este hábito provocava
frequentemente situações engraçadíssimas
que davam, só por si, para uma boa colecção de
histórias.
Vi-o ser abordado por muita gente importante que queria cumprimentar
e ver de perto o homem que fazia soar aquele instrumento meio artesanal
como se fosse uma orquestra. Estes encontros deixavam-no frequentemente
meio incrédulo, e sempre os atribuía a outras razões
que não a sua genialidade.
A figura descuidada e totalmente anti-vedeta que passeava por qualquer
palco era grandemente responsável pelo carinho que lhe devotava
o público fiel e pela surpresa que causava nos que o ouviam
pela primeira vez.
A guitarra portuguesa conseguiu com ele uma promoção
e uma notoriedade que dificilmente alcançaria sem este homem
que fica na memória, entre outros, de todos os músicos
da sua época.
Cantos Livres
A imagem de marca dos espectáculos de música nos anos
que sucederam ao 25 de Abril foi o “Canto Livre”.
O Canto Livre era um concerto de cunho marcadamente político,
em que desfilava um grande número de cantores e alguns grupos
(ainda não existia então a equívoca expressão
de “bandas”), que actuavam, salvo raras excepções,
de borla.
O acompanhamento instrumental tinha de ser simples, a maior parte
das vezes só uma viola acústica, uma vez que não
existiam as sofisticadas condições técnicas necessárias
para a montagem, desmontagem e captação sonora de grupos
pop/rock. Lembro, por exemplo, as peripécias narradas pelo
Manuel Faria no seu interessante livro sobre a história dos
Trovante, onde refere, por exemplo, as inúmeras vezes que ficou
sem participar nos concertos do grupo por não poder dispor
de um piano.
Quando começava um espectáculo de Canto Livre ninguém
podia prever a que horas iria acabar, por duas razões:
A primeira é que nunca se sabia quem vinha. Os organizadores
telefonavam a todos os voluntários que conheciam e estes, que
generosamente diziam quase sempre que sim, viam-se amiúde com
dois e três espectáculos na mesma noite com muitos quilómetros
a separá-los, e quando acabavam a sua actuação
no primeiro a noite já ia avançada.
A segunda razão era a dificuldade em controlar o tempo de cada
actuação. Dizia-se ao cantor que tinha direito a três
canções mas ele, uma vez no palco e entusiasmado pelo
calor do público, perdia a noção do tempo e só
saía de lá passada meia hora ou mais.
As histórias dos Cantos Livres dariam, só por si, para
um livro que retratasse o pós 25 de Abril visto a partir de
um dos mais interessantes movimentos que ele gerou.
Ocorrem-me algumas memórias desgarradas desses tempos confusos,
desordenados, sofridos, erráticos mas, acima de tudo, fascinantes.
Uma vez, creio que para os lados de Leiria, da dúzia e meia
de cantores esperados, à hora de começar só estava
o Samuel. Pediram-lhe para arrancar porque daí a dez minutos
já estariam a chegar mais companheiros para o renderem, e ele
foi para o palco. E conforme lhe iam dizendo que o Zé Jorge
Letria ou o Adriano ou o Vitorino não podiam vir ele, que sabia
de cor músicas de todos eles, anunciava a desistência
e cantava umas quantas canções do faltoso, e assim esteve
mais de uma hora até chegar alguém que o rendesse.
No Verão improvisavam-se palcos em sítios aonde nunca
tinha chegado um espectáculo. Dois reboques de tractor encostados
um ao outro no meio de um campo, com uma lâmpada de três
ou quatro mil watts em cima, serviram para noites inesquecíveis
de comunhão com um público ávido de saber notícias
do país e do mundo que lhe eram trazidas pelos novos trovadores.
Nessas circunstâncias os músicos mais precavidos untavam-se
com repelente de insectos, uma vez que aquela luz isolada atraía
tudo o que voava. Uma noite, no Couço, eu tocava flauta e numa
das respirações rápidas que o instrumento exige
entrou-me pela boca uma borboleta. Creio que foi a única vez
em que me zanguei com aquelas difíceis condições
de trabalho.
Lembro um espectáculo no Coliseu onde que me pediram para ser
o director de cena e que me traz, só por si, uma tão
rica colecção de recordações que não
resisto a deixá-lo para a crónica do próximo
30 dias.
Um Canto
Livre no Coliseu
Lembro-me de um
Canto Livre organizado no Coliseu, se não estou em erro em
1977, por um grupo de sindicatos da Intersindical, em que me pediram
para ser o director de cena. Num Canto Livre esta função
era particularmente ingrata uma vez que por ela passava a difícil
tarefa de «arrumar a casa», ou seja, procurar que cada
cantor não excedesse o tempo que lhe estava distribuído,
evitando que o espectáculo terminasse lá para as tantas,
com os últimos a actuar para uma plateia cansada e cheia de
clareiras.
Particularmente difícil se mostrou este trabalho, uma vez que,
tirando o Zeca que não pode ir por qualquer razão, «estavam
lá todos». A muito custo, policiando cada actuação
de relógio na mão, e provocando alguns amuos que tive
que adoçar nos dias que se seguiram, consegui acabar o concerto
antes da uma e meia da noite, com o público a desejar mais,
o que constitui uma regra básica de qualquer espectáculo.
Dois momentos desta noite ficaram mais profundamente gravados na minha
memória. Um pela emoção e outro pelo bizarro
da situação.
O primeiro começou com o Zé Mário a vir ter comigo
dizendo-me, Osório não queres vir com o teu acordeão
dar uma ajuda a uma estreia que eu tenho para hoje? É uma chula
muito simples. Disse-lhe que sim e fomos para um camarim ensaiar,
ele trauteando sem letra e eu estudando as harmonias.
Daí a pouco estávamos no palco. Só aí
escutei pela primeira vez a belíssima letra de «Eu vim
de longe», e conforme a canção ia progredindo
os olhos iam-se-me enchendo de água. Terminei quase sem ver
nada, as luzes dos follow-spots cegando-me com as cintilações
que arrancavam das minhas lágrimas, na minha estranha condição
de interveniente e espectador em simultâneo. Aliás o
público estava numa situação semelhante à
minha, só que não tinha, como eu, as mãos ocupadas
a tocar acordeão.
O segundo momento
inesquecível deu-se no final. Como era costume alguém
deu a voz de - todos ao palco para cantar a Grândola. Ainda
tentei lembrar - alguém que saiba a letra toda para ir para
o meio. O Adriano disse que sabia e perante a minha dúvida
atirou-me com um ó Pedro então eu não havia de
saber a Grândola?
Acontece que a letra da cantiga que ficou como o hino do 25 de Abril,
com as suas trocas de versos e repetições por ordem
inversa, aparentando ser de fácil memorização
é uma autêntica armadilha para os que pensam sabê-la
de cor. Eu já por mais de uma vez tinha assistido a situações
embaraçosas e um Coliseu cheio não era coisa que se
menosprezasse. Mas perante tal afirmação de confiança
lá fomos todos para o palco e, de braço dado, com o
Adriano ao meio, arrancámos com a Grândola à qual
a assistência se juntou desde logo. À terceira quadra
começaram as dúvidas que no entanto foram ultrapassadas
com a ajuda de alguns elementos do público. Mas mais duas quadras
e foi a desgraça, cada um cantando uma letra diferente, a cacofonia
desfazendo-se em risos disfarçados por palmas.
Se não fosse um Canto Livre tinha sido um final de fiasco total.
Mas ali as coisas eram diferentes e nós descemos até
à plateia conversando com amigos que encontrávamos,
e o espectáculo terminou com a fusão entre o palco e
a sala.
O homem do
jazz
Conheci o Luís
Vilas Boas em 1966. Tinha eu regressado de Angola, após dois
anos três meses e vinte e cinco dias de comissão, e tentava
retomar o curso de Engenharia. Fugido à Mecânica Racional
da Universidade do Porto, que o Prof. Sarmento Beires, um catedrático
da linha dura, transformava num inferno que desertificava o 3º
ano do curso, encontrava-me eu em Coimbra, numa República cujo
nome não recordo, para fazer a famigerada cadeira juntamente
com algumas do 4º ano.
Aproveitei a minha curta estadia para mergulhar no ambiente fascinante
de uma cidade onde os estudantes eram o motivo e o motor de quase
tudo e onde a vida académica, cuja intensidade me fascinava
comparada com a do Porto onde éramos uma minoria, me proporcionava
continuamente experiências novas.
Fui praxado, praxei, fiz serenatas onde por vezes, à falta
de guitarra portuguesa, trinava no meu cavaquinho, enganando o fado
e as baladas acompanhado à viola pelo meu primo António
Mota Prego, toquei jazz com o Daniel Proença de Carvalho na
viola-baixo e o José Niza na guitarra eléctrica (que
bem ele imitava o Wes Montgomery) e, acima de tudo, conversei, debati
e discuti com colegas vindos de todas as partes do país. Isso
foi determinante no amadurecimento da minha compreensão do
país e do mundo que tinha sido despoletada pela comissão
em Angola, da qual regressara há uns meses.
Na véspera do meu exame de Mecânica Racional, após
o meu jantar na República, fui dar uma volta e regressei pelas
dez horas informando os meus colegas de que iria deitar-me cedo para
acordar fresco para o exame do dia seguinte, marcado para as nove
horas. Pediram-me então para esperar mais um pouco porque ia
lá um tipo de Lisboa que era um entusiasta do jazz e que queria
conhecer-me. Argumentei que era vital um bom sono para estar a cem
por cento para uma prova oral onde não podia falhar mas acabei
por aceder a esperar até às onze. Pouco depois chegou
o Luís Vilas Boas e rapidamente percebi que estava diante de
mim um dos homens mais fascinantes que conhecera até então.
O entusiasmo com que falava de música, o modo encantatório
como contava histórias de músicos com quem privara e
que eu só conhecia de ouvir em discos, as coisas que contava
de mundos inteiramente novos para mim, fizeram com que o tempo voasse.
Quando, após diversas despedidas frustradas, me fui deitar,
já passava das quatro horas da manhã. Felizmente encontrava-me
bem preparado para o exame, mas o modesto 12 que consegui arrancar
deveu-se, sem dúvida, àquela noitada. No entanto nunca
lamentei isso, porque ganhei ali um amigo que iria acompanhar-me longamente
quando, pouco tempo depois, tive de emigrar para Lisboa para poder
abraçar a carreira que realmente desejava, a de músico
profissional. Possivelmente a conversa daquela noite foi determinante
para essa minha difícil opção.
Um livro de memórias do Vilas Boas – e o Fernando Tordo
seria indubitavelmente o seu principal relator – constituiria
um documento fundamental para documentar e fazer compreender muito
do que se passou em Portugal nas últimas décadas do
século XX.
O seu enterro foi dos momentos mais emocionantes e líricos
que vivi, e as suas histórias continuam a animar os serões
dos amantes da música.
O concerto
esquecido
«As Canções do Século» foi uma das
minhas produções de maior sucesso. Era um espectáculo
que não facilitava, exigente, sempre realizado com grande profissionalismo.
Durante seis anos, juntamente com a Rita Guerra, a Helena Vieira,
a Lena d’Água, seis músicos e a incansável
equipa de produção da Ana Moitinho, percorri um país
caloroso, interessado, atento, respeitador, gentil, que honra os compromissos.
Muitas vezes me interroguei sobre qual seria o Portugal real, se este
que nós encontrávamos, se o outro que todos nós
criticamos por ser desarrumado, irresponsável, falho de civismo,
amador. Creio que somos um povo que, quando é bem tratado e
se entusiasma, é capaz do melhor mas, se é maltratado,
não consegue manter o sangue frio, perde a cabeça, dispara
para onde calha e depois tem imensa dificuldade em reencontrar o caminho
do equilíbrio.
De todas as actuações que, como já deixei adivinhar,
correram maioritariamente segundo os planos ajustados ao pormenor
entre a equipa de produção e as entidades contratantes,
uma houve que, não só por ter sido uma excepção
a esta regra como por tê-lo sido de uma forma um tanto bizarra,
sempre é relembrada pela equipa quando nos encontramos, de
tempos a tempos, para confraternizar e afagar a saudade. Realizou-se
no Porto, no belíssimo Palácio da Bolsa, e integrava
uma festa, com numerosos convidados estrangeiros, em que eram empossados
novos membros da prestigiada Confraria do Vinho do Porto.
Havia um jantar no segundo andar e o concerto teria o seu início,
num salão/hall do primeiro, pelas onze, onze e pico. Às
onze menos um quarto estávamos todos na sala de espera, aquecimento
feito, prontos para cumprir o horário. Cerca das onze e vinte
vimos descer um casal, passar pela sala do concerto e sair. Pouco
depois seguiram-se mais dois casais. Recomeçámos o aquecimento
e, cerca da meia-noite, um técnico de som veio informar-nos
de que continuavam a sair convivas. A Ana Moitinho achou que, apesar
de já ter recebido o cachet, deveria perguntar ao organizador
o que é que se passava. Subiu ao salão árabe
e voltou pouco depois dizendo que não o tinha conseguido encontrar
e, estando a decorrer um discurso, achara por bem não interromper.
Alguma coisa se teria atrasado pelo que nos restava aguardar com paciência.
Cerca da meia-noite e meia, e com a informação de que
continuava a sair gente, achámos que era demais: havia que
exigir uma explicação. A Ana voltou ao andar de cima
e regressou pouco depois com um semblante meio de aflição
meio de riso. Finalmente chegara à fala com o organizador que,
perturbadíssimo, lhe confessou ter-se esquecido de informar
os convidados que havia um concerto após o jantar. Pior ainda,
dos perto de quatrocentos convidados não restavam mais de quarenta.
No entanto mantinha-se o espectáculo que começaria dentro
de um quarto de hora.
Pedimos à Ana que fosse propor ao atabalhoado organizador uma
versão mais curta do concerto, que na configuração
prevista teria cerca de uma hora e vinte minutos. Voltou pouco depois
com a resposta do homem que, de ânimo entretanto recuperado,
se armava agora em empresário duro: tinha pago o espectáculo
total por isso queria o espectáculo total.
À uma hora da manhã começámos o concerto
perante trinta e poucos espectadores bem comidos, melhor bebidos e
ensonados. Quando terminámos, perto das duas e meia, dificilmente
contínhamos o riso perante uma plateia que a custo mantinha
os olhos abertos e, nalguns casos, somente acordava para bater as
palmas nas mudanças de cena.
De como um
músico pode ser vítima de um técnico de som
Muita gente desconhece que os concertos de música amplificada
têm sempre dois técnicos de som; um que faz o som «da
frente», aquele que o público ouve, e outro que faz a
«monição» ou som de palco, que se destina
aos músicos, e que lhes permite tocar ouvindo-se uns aos outros
em boas condições. Qualquer deles é de importância
decisiva para o espectáculo, o primeiro porque define a qualidade
e o equilíbrio do som que chega ao público, o segundo
porque, se fizer um trabalho correcto, permite que os músicos
toquem ao seu melhor nível.
O técnico da frente pode, inclusivamente, melhorar a prestação
do palco, quer ocultando erros ou deficiências de algum músico,
quer, lançando mão das modernas tecnologias de tratamento
do som, corrigir algumas insuficiências.
Quanto ao técnico de palco, é fundamental que os músicos
depositem confiança no seu trabalho, sem o que estarão
permanentemente inseguros e, consequentemente, fragilizados.
A primeira vez que fui vitimado por um técnico de monição
foi algures nos anos 70, num concerto realizado no antigo cinema Roma
em que eu ia tocar um único tema com o Júlio Pereira.
Tratava-se de um espectáculo com diversos artistas, entre eles
um grupo rock inglês exclusivamente feminino, The Raincoats,
que contava com uma guitarrista portuguesa, Ana da Silva. Era um grupo
de rock ‘underground’, que hoje se chamaria «alternativo».
O meu instrumento, um piano eléctrico Fender Rhodes, tinha
de ser ligado a um amplificador, uma vez que o som débil das
suas placas metálicas mal se conseguia escutar com o ouvido
encostado à caixa. Levei o meu amplificador mas o técnico
insistiu para não o montar, uma vez que o palco era pequeno
e havia muitas mudanças. Garantiu que me colocava uma coluna
de monição excelente, que daria melhor som que o meu
amplificador. Ainda esbocei alguma resistência - que estava
habituado ao som do meu amplificador, que era mais seguro - mas a
intervenção do produtor do espectáculo fez-me
ceder, atitude da qual me iria arrepender profundamente.
Quando começámos a tocar, logo ao primeiro acorde senti
um calafrio. O homem do som tinha trocado as vias e pelo meu monitor
em vez do piano saia o som da bateria do Guilherme Inês. Fiquei
em pânico porque não ouvia uma nota do que tocava. Tentei
chamar a atenção do técnico e fiz-lhe sinal de
que não conseguia ouvir; apontei para as teclas, depois para
o ouvido e fiz um 0 com os dedos. Infelizmente também como
intérprete de linguagem gestual ele não se mostrou muito
eficiente, porque meteu os dedos à mesa e… subiu-me o
som da bateria. Fiquei pior do que antes. Ensurdecido pelo som da
tarola e do bombo, tocava olhando para as teclas assegurando-me de
que pelo menos fazia os acordes certos. Mais tarde faria chalaça
com a situação dizendo que muitos músicos tocavam
de ouvido, mas eu tocara «de vista».
Às tantas o Júlio Pereira deu-me sinal para eu fazer
um solo. Com ar de grande aflição abanei que não
com a cabeça mas ele, pensando que eu estava com timidez insistiu
e, dando-me a deixa, olhou para o público e apontou para mim.
Tive de fazer um improviso só com harpejos e escalas, horrorizado
porque toda a gente ouvia o meu solo, excepto eu.
Uns dias depois saiu uma crítica ao espectáculo em que
o escrevedor me arrasava dizendo que eu fizera um solo «cheio
de passarinhos».
Durante muitos anos sempre que tinha de tocar um instrumento eléctrico
em palco ia prevenido com um par de auscultadores como recurso para
uma quebra da monição. Felizmente nunca tive de os usar.
Como se constrói
um espectáculo
Muitas vezes me perguntam qual o caminho que sigo para fazer uma
canção, para musicar um filme ou para construir um espectáculo.
Aqui fica para os interessados um resumo das principais fases por
que passou a produção de “As Canções
do Século”, um dos espectáculos de mais sucesso
que criei.
1 - Primeiro há que imaginar o conceito central. Resultando
essencialmente de uma longa reflexão, vai sendo catalizado
por conversas sobre as ideias que surgem aos poucos, e que eu procurava
testar discutindo-as com colegas de profissão. O formato pelo
qual me decidi foi o de um grande “medley” de canções
de sucesso, portuguesas e internacionais, que começasse em
1900 e, seguindo uma ordem rigorosamente cronológica, terminasse
no momento actual. Precisaria de três vozes, número mínimo
para, quando necessário, saltar dos solos para um grupo vocal.
Necessitaria de uma grande orquestra que pusesse à minha disposição
um variado leque de opções sonoras. Teria de ser pontuado
por 4 ou 5 intervenções de um narrador que fosse fazendo
o enquadramento histórico, para que o espectáculo fosse
sentido como uma viagem através do século XX visto através
da música popular.
2 - O segundo passo é a constituição do elenco.
Resolvi optar por três vozes femininas. Deveriam ter alturas
(tessituras) diferentes para cobrirem um largo espectro sonoro e preferencialmente
deveriam ler música, para facilitar o trabalho de grupo. Convidei
a Rita Guerra, uma voz com bons graves, a Lena d’Água,
de voz mais aguda, e a Helena Vieira, uma soprano lírica que
não só permitiria abordagens diferenciadas em solos
como daria uma excelente ‘top voice’ em partes corais.
Todas aceitaram com entusiasmo e o projecto começou a ganhar
consistência.
3 – Entrou-se então na fase da escolha do repertório.
Para excertos com uma média de um minuto precisava de seleccionar
cerca de 80 canções representativas e que se adaptassem
às intérpretes. Foi um trabalho de meses em que corri
arquivos, comprei discos, pedi outros a amigos, e acabei por reunir
aproximadamente 200 canções que cobriam as mais importantes
correntes musicais dos cerca de oitenta anos a que se reportava o
projecto.
4 - Para escolher cerca de 80 canções de entre as 200
recolhidas tornou-se claro que era necessário começar
a construir o espectáculo. Entrámos então na
fase em que eu e as cantoras, ao longo de dezenas de tardes passadas
no meu estúdio, fomos tricotando o ‘supermedley’,
escolhendo quem cantava o quê, qual a cantiga que melhor encadeava
na anterior, inventando surpresas e passagens interessantes ou até
humorísticas, e gravando maquetas com piano e vozes que levávamos
para ouvir e criticávamos na sessão seguinte. Com este
trabalho criámos inúmeras sequências entre 5 e
15 minutos que já nos davam ideia do potencial de que dispúnhamos.
5 – Paralelamente à elaboração deste primeiro
esboço, ainda fragmentado, abordámos outro aspecto fundamental,
o da escolha do Agente Artístico que se encarregaria do ‘management’
do projecto. É um aspecto crucial, porque da relação
entre os artistas e o manager pode depender o sucesso ou o fracasso
do espectáculo. A nossa escolha recaiu na Oficina da Ilusão,
por causa da inefável Ana Moitinho, possuidora de uma cordialidade
que lhe permitia gerir um projecto envolvendo tanta gente.
6 – Já em colaboração com a empresa de
management elaborámos a proposta de apresentação
do concerto ao Casino Estoril, terminámos a maqueta total,
com vozes e piano, e definimos a constituição da orquestra.
7 – A fase de orquestração é um período
de trabalho solitário. Ao piano, diante de resmas de papel
de música e do gravador com as maquetas, vou dando a forma
final às sonoridades que me foram sendo sugeridas anteriormente.
Depois de ultrapassada a «angústia da partitura em branco»
em que marco passo durante alguns dias, entro num ritmo frenético
que se vai prolongar por cerca de um mês e meio.
8 – Finalmente aproxima-se a estreia. Três dias de ensaio
com a orquestra, um dia de ensaio de palco e uma hora e meia para
conquistar o público, sem o que o trabalho de quase um ano
vai pela borda fora.
Os músicos
e a tecnologia
No final dos anos 70, fazia eu parte da direcção do
Sindicato dos Músicos, foi o mercado da música abalado
por duas novidades tecnológicas: as discotecas, onde o som
de grande qualidade, as luzes até então só usadas
no teatro e o despontar dos futuros DJs, substituíam a música
ao vivo ameaçando os conjuntos de dança; e os sintetizadores,
que prometiam imitar todos os instrumentos, mandando para o desemprego
os músicos de estúdio.
Um pouco por toda a Europa e América ergueram-se protestos
dizendo que era preciso proibir as ‘boîtes’ só
com música gravada (o termo discoteca só apareceria
mais tarde) bem como a utilização de sintetizadores
em estúdios de gravação.
Entre nós também surgiram vozes exigindo tomadas de
posição nesse sentido e preconizando formas de luta.
O assunto foi discutido em plenário e os meus colegas ficaram
muito surpreendidos quando eu, tido como recalcitrante e combativo,
votei contra.
Expliquei que achava errada a luta por duas razões: primeiro
porque lutar por uma causa perdida era um erro estratégico,
e os avanços tecnológicos nunca seriam travados, a não
ser provisoriamente. Depois porque eu acreditava que, passados os
primeiros tempos de adaptação às novas condições,
acabaríamos por encontrar mais vantagens do que inconvenientes
nas novidades que nos pareciam tão ameaçadoras.
A minha posição acabou por vingar, embora com alguma
relutância. Felizmente o futuro veio dar-me razão.
Nos dez anos seguintes o número de músicos profissionais
no mundo pop/rock quase duplicou. Os sintetizadores, criando novas
sonoridades e contribuindo para o aparecimento de novos estilos, acabaram
por injectar uma surpreendente vitalidade no mercado da música.
As ‘boîtes’ deram lugar aos bares com música
ao vivo onde os músicos passaram a trabalhar em condições
mais dignas e mais gratificantes do que as anteriores.
Mais dez anos passados e o público, cansado dos exageros da
música electrónica, começou a acorrer massivamente
aos concertos acústicos e o chamado ‘unplugged’
fez escola.
Quando me encontro com colegas que viveram comigo estas mudanças
que, por vezes, nos assustaram, relembramos os tempos difíceis,
rimo-nos um bocado e ficamos placidamente à espera da próxima
revolução.
Gravar em
Madrid
Por altura dos anos 70 os nossos estúdios de gravação
eram ainda muito deficientes, bem como os “músicos de
sessão”, assim chamados por trabalharem em sessões
de três horas, e que teriam de ser bons leitores e capazes de
se adaptarem a qualquer estilo, condições indispensáveis
para um eficiente trabalho de estúdio. Estas fragilidades,
que foram ultrapassadas na década de 80, lavaram-me por diversas
vezes a Espanha para gravar algumas produções que beneficiavam
de orçamentos mais alargados.
Chegava na segunda e regressava na sexta-feira, repartindo integralmente
o meu tempo entre o quarto do hotel e o estúdio. Daí
que as memórias que guardo de Madrid desses tempos se resumam
a histórias de música e de músicos.
Uma vez, durante um ‘coffee break’ no bar do Eurosonic,
fui abordado por um músico que se me apresentou como Julio
Iglesias. Quando lhe perguntei que instrumento tocava os espanhóis
que trabalhavam comigo desataram a rir, e tive dificuldade em convence-los
de que desconhecia por completo o cantor que já na altura tinha
ultrapassado o milhão de discos vendidos, mas que em Portugal,
logo ali ao lado, era pouco mais que um ilustre desconhecido.
Lembro também um episódio engraçado que sucedeu
durante a gravação de um naipe de metais.
A certa altura o primeiro trompete, o célebre Canno, levantou-se
e disse “me boi al báter”, e saiu do estúdio.
Eu, pensando que se tratava de alguma paragem exigida pelos acordos
sindicais, perguntei aos outros músicos se parávamos
por 10 minutos. Responderam-me que não que retomávamos
dentro de momentos. Insistindo eu no esclarecimento da situação
acabei por perceber que o músico, que na boa tradição
asturiana triturava impiedosa e orgulhosamente a língua inglesa,
tinha ido à casa de banho, que na sua região de origem
tinha sido adaptada de ‘water closed’ para ‘báter’.
Excelentes músicos espanhóis cujo profissionalismo emprestou
um inestimável contributo à carreira que eu então
iniciava de dirigir e escrever para orquestra.
Keith Jarrett
no Coliseu
Foi numa noite de Junho de 1981 q |