Uma noite
inesquecível
Na primavera de
1980 passei uma semana na Holanda acompanhando o Paco Bandeira numa
série de espectáculos para emigrantes. Começámos
com duas actuações, sexta e sábado, em Amesterdão,
seguidas no domingo, salvo erro, em Haia. Na segunda-feira fomos para
Roterdão onde tocaríamos só na terça.
Com o dia livre numa cidade que visitava pela primeira vez gastei-o
a fazer turismo à minha moda, ou seja, nada de monumentos nem
roteiros turísticos. Andar pelas ruas, entrar em cafés,
conversar com um vendedor de um mercado, visitar livrarias e lojas
de discos, parar um pouco num banco de jardim, enfim, respirar a cidade
para lhe conhecer os ruídos e a pulsação.
Ao fim da tarde voltei ao hotel, estoirado, e pensei que nada melhor
que um concerto para acabar o dia. Está com sorte, disse-me
o recepcionista, porque há aqui perto um auditório onde
hoje toca uma orquestra daqui formada há poucos meses. Estendeu-me
um roteiro turístico onde li a notícia de um concerto
com uma tal “Amsterdam Baroque Orchestra” dirigida por
“Ton Koopman”, um ilustre desconhecido para mim.
Tive sorte. A lotação estava esgotada mas a menina da
bilheteira, a quem eu tentei convencer de que tinha ido desde Portugal
a pé, lá me arranjou um bilhete de um desistente.
Foi a primeira vez que vi uma orquestra com os músicos, todos
jovens, tocando sem as tradicionais casacas e vestidos pretos. O flautista
solista, de veludo canelado como os músicos de jazz e com uma
postura correspondente. O cravista tocando e simultaneamente dirigindo
com a cabeça, improvisando as “cadências”
e repetindo-as, a pedido de “bis”, inteiramente diferentes.
E o público aplaudindo com gritos de entusiasmo como se fosse
um concerto de rock-and-roll.
Foi uma noite-revelação que me fez conhecer o que viria
a ser um novo conceito de concerto clássico, desenvolvido nos
anos seguintes, curiosamente, pelas orquestras de música antiga,
da qual Koopman viria a ser um dos mais conceituados intérpretes.
Godspell
Em 1973, com a
“Primavera Marcelista” a abanar, mas ainda com força
para resistir aos fortes ventos de mudança, um encenador dinamarquês
que ensinava no Conservatório Nacional resolveu propor ao empresário
Vasco Morgado a montagem de ‘Godspell’, uma belíssima
ópera-rock que retomava o tema da vida de Jesus Cristo num
ambiente de grande fantasia, por vezes quase circense.
Aceite, em princípio, a proposta, constituiu uma equipa, para
a qual eu também fui convidado, com o objectivo de fazer a
adaptação através de um trabalho colectivo, uma
vez que a peça, ela mesma produto de criação
colectiva, propunha um elevado grau de liberdade a qualquer nova versão.
O grupo era formidável. Lembro-me que incluía, por exemplo,
o Jorge Palma, o Fernando Pereira, a Maria João, as duas irmãs
Mata – na altura ainda alunas do Conservatório –
e o Fernando Girão.
Acampámos no teatro Capitólio e começámos
a trabalhar com entusiasmo crescente.
Aos poucos a nossa irreverência, picada pelo vanguardismo do
encenador, foi introduzindo no espectáculo mensagens libertárias
que, directa ou indirectamente, questionavam ou criticavam a ditadura.
Uma tarde, após algumas semanas de trabalho, tivemos a visita
do Vasco. Parámos o ensaio e cobrimo-lo com a nossa euforia.
Tínhamos ali um sucesso estrondoso, íamos fazer história
e ele ia fartar-se de fazer dinheiro.
Espero bem que sim, dizia ele, então deixem-me lá ver
o que é que está feito.
Subimos ao palco e mostrámos-lhe, vaidosos, os cerca de 30
minutos que já estavam alinhavados, após o que descemos
à plateia e cercámo-lo, ansiosos, para ouvir a opinião
do experiente empresário.
Sim senhor, disse ele, isto está muito bom. Gritos e aplausos
da nossa parte. Só tem um problema. Silêncio nosso. É
que se passarmos o exame da censura, e eu até saberei uns truques
para conseguir isso, no dia a seguir à estreia... vamos todos
presos.
Passados poucos
dias recebemos a notícia, que nos fez chorar e, soubemos depois,
o deixou de rastos, de que a peça estava cancelada.
Hierarquia
militar vs. hierarquia musical
Quando chegou
a minha vez de ir para a tropa e ser mandado para a guerra colonial
fui, com grande espanto meu, enfiado num curso de dois meses (?) de
Administração Militar. Pouco tempo depois estava a ser
enviado para Luanda para dirigir um departamento da Chefia dos Serviços
de Contabilidade e Administração. Ficou-me desde sempre
a convicção de que algum general se tinha deixado invadir
por um momento de humor porque das diversas funções
que eu poderia desempenhar num exército esta seria, sem dúvida,
aquela para que me encontrava menos vocacionado.
Ao ver-me sentado numa secretária do Quartel-general, rodeado
de guias de marcha e de formulários de subvenções
de família, hesitei entre deixar-me tomar pelo pânico
ou desatar a rir.
Foi então que soube que o pianista da orquestra ligeira do
exército estava prestes a acabar a comissão de serviço.
Pensei logo que ali estava a salvação minha e dos serviços
de administração militar.
Fui falar com o major encarregue dos serviços de apoio ao exército
(a denominação seria parecida com esta, creio eu) propondo-lhe
que me transferisse do meu cargo, previsivelmente catastrófico,
para o de pianista da orquestra, onde podia ser útil e eficaz.
A primeira reacção foi de entusiasmo até porque
eu, que já era razoavelmente conhecido como músico,
poderia dar um bom contributo para a melhoria do moral das tropas.
Mas logo veio um “ora bolas, mas isso não é possível!”
com efeito de balde de água fria. Seria necessário vir
a ordem de Lisboa? perguntei eu. Não, o problema não
era esse. O que acontecia era que o maestro da orquestra era um sargento
e eu, sendo oficial, não podia tocar sob as ordens dele.
Eu argumentei que na música a hierarquia não se faz
assim, que eu ia ser solista e ia ser mais “vedeta” que
o sargento, que não ia tocar sob as ordens do sargento mas
sob a sua direcção, que se eu fosse dirigir um concerto
em que o cantor fosse o Sinatra ele é que seria o chefe e não
eu.
Nada a fazer. Tropa é tropa e tem as suas regras e nem a música
lhes pode fugir.
Durante dois anos
três meses e cinco dias tentei, sem sucesso, ser um razoável
oficial de administração. Felizmente havia no meu serviço
um sargento que sabia daquilo e assumiu, de comum acordo, a verdadeira
chefia do departamento. Mas como de fora ninguém notava não
houve qualquer problema.
Encontro
às dez-dez-e-um-quarto
O meu amigo e grande músico Luís Pedro
Fonseca desfez-se há uns meses do estúdio que dirigiu
durante anos e por onde passou o que de melhor há na música
portuguesa. Muitas vezes o ouvi queixar-se do principal problema que
enfrentava para a rentabilização da empresa e que eram
as horas perdidas com os atrasos crónicos dos músicos
nacionais, que lhe provocavam um abaixamento da taxa de ocupação.
Como é evidente só se pode começar a trabalhar
com um grupo quando chega o último elemento, facto este que,
aliado ao nacional-porreirismo que vai sobrevivendo ao espírito
europeu, leva o produtor a pedir que só seja cobrado o tempo
a partir do início dos trabalhos.
O desperdício decorrente da falta de pontualidade é
um problema com que deparo desde sempre, um pouco atenuado nos últimos
tempos mas ainda uma imagem de marca da alma lusa. Já houve
tempos em que eu reagia aos atrasos com mais veemência do que
hoje, o que me leva a recear que tenha sido parcialmente contaminado.
Mas não vá pensar-se que isto se passa só na
música. Ainda hoje é rara, nos mais variados sectores,
a reunião das 3 que começa antes das 15 e 30. Há
sempre o trânsito que estava muito complicado – como se
não estivesse sempre – o almoço que demorou mais
do que o previsto, ou a reunião das dez e meia que só
começou às onze “e me deu cabo dos planos”.
Tenho o hábito de protestar, inutilmente, bem sei, quando me
marcam um encontro para as dez-dez-e-um-quarto. Tento reagir perguntando:
Mas então é às dez ou às dez e um quarto?
Recebo de volta, invariavelmente, um sorriso condescendente
Lembro-me da primeira vez que fui gravar a Madrid. Cheguei ao estúdio
Eurosonic poucos minutos antes da hora marcada para o início
da sessão, cumprimentei o director técnico, pedi um
café e, vendo o bar muito calmo, perguntei pelos músicos.
– Estão todos à espera no estúdio - disseram-me.
Engoli o café à pressa, acelerei para o salão
e ali estavam todos, já com os instrumentos afinados, os microfones
colocados, prontos a começar o trabalho.
A explicação da nossa dificuldade em apanhar a Europa
talvez passe também por aqui.
Compre o
que é nosso
Em 2001 fui a Paris de propósito para assistir
a um concerto de um dos mais prestigiados cantautores franceses que,
dizia-se, iria abandonar a sua actividade musical. Michel Sardou,
quase desconhecido entre nós, tinha então 54 anos e
uma carreira longa e prestigiada.
O espectáculo tinha lugar no pavilhão de Bercy onde,
com uma lotação de 17.000 lugares, se manteve com casas
esgotadas durante 15 dias, com dois espectáculos ao sábado
e ao domingo. Em números redondos isto dá mais de 300.000
espectadores e, com bilhetes a preço médio de €55,
uma receita bruta de cerca de 16 milhões de euros.
Uma das coisas que me chamou a atenção foi o facto de
não haver em Paris um cartaz a anunciar o espectáculo.
Soube depois que a publicidade tinha sido toda institucional, à
base de notícias justificadas pelo prestígio do artista.
No avião, de regresso a Lisboa, lancei-me num jogo de comparações
entre o ambiente da música popular em França e em Portugal.
Tomei, por exemplo, três artistas portugueses com idade e carreira
semelhantes às de Sardou, a saber, Fernando Tordo, Fausto e
Carlos do Carmo. Dividindo o público por 6, uma vez que a população
francesa é de 61 milhões e a nossa de pouco mais de
10, imagino qualquer deles a fazer 4 dias de Pavilhão Atlântico
com a lotação de 13.000 lugares. Impossível,
não arranjariam produtor que arriscasse e caso se metessem
em autoprodução o desastre financeiro seria a consequência
inevitável. Até porque teriam de encher o país
de cartazes, o que lhes comeria uma parte substancial das receitas.
Por cá, quatro Pavilhões Atlântico só com
artistas estrangeiros (Tony Carreira conseguiu três mas aí
a explicação é atípica).
Os artistas seniores em França são uma aposta segura;
em Portugal são um risco a evitar.
Mas se passar a comparação para o caso da presença
de artistas nacionais no estrangeiro as coisas mudam radicalmente.
Aí, com a nossa dúzia e meia de sucessos internacionais,
não precisamos de multiplicar por seis para ultrapassar largamente
a França.
Agora que se tenta relançar frases do género “o
que é português é bom” ou “compre
o que é nosso” estas minhas notas podem constituir mais
uma dica para integrar a grande e profunda reflexão que, complementarmente
à campanha, o país tem de fazer.
Música
e petróleo
Há dias
as dez maiores empresas mundiais de produtos de tecnologias de informação
enviaram uma carta ao presidente da Comissão Europeia exigindo-lhe
que retire a pequena importância que alguns dos seus produtos
pagam para os autores, de modo a compensá-los das imensas perdas
resultantes da cópia digital, lícita ou ilícita.
Sendo que aquela importância lhes provoca uma diminuição
dos seus fabulosos lucros na ordem dos 0.0x %, o que mais lhes interessa
aqui é a música, cujos autores e intérpretes
lhes fornecem o combustível que faz mover as suas actividades
industriais e comerciais.
Isto põe a descoberto dois problemas do mundo contemporâneo.
O primeiro é a sobranceria gananciosa das grandes multinacionais
e o segundo a enorme pressão que se abate sobre a criação
musical no sentido de a controlar e explorar.
Com efeito nunca a criação musical teve tanta importância
como nos nossos dias mas, exactamente por causa disso, nunca correu
tantos perigos. A música está presente no nosso quotidiano,
na televisão e na rádio, nos restaurantes e nos elevadores,
nos ginásios e nos leitores de mp3, nos telefones e nos computadores,
nos dentistas e, já agora, nas salas de concertos.
A música é, como o petróleo, um bem essencial
de consumo que movimenta milhões e esse facto beneficia, mas
também ameaça quem a produz, porque os grandes interesses
económicos fazem tudo ao seu alcance para dominar as fontes
de produção. O controlo da música tem provocado
guerras como a actualmente dirigida pelas grandes empresas contra
os autores e os intérpretes, guerras que não são
sangrentas como as do petróleo, mas que causam danos culturais
imensos, levando a este paradoxo: nunca se produziu tanta e tão
boa música como hoje e talvez nunca se tenha ouvido generalizadamente
música de tão baixa qualidade.
A grande diferença é que o petróleo um dia acabará
mas a música, essa é inesgotável. Mesmo que o
presente esteja repleto de ameaças ela acabará por sair
vencedora.
A verdade
da mentira
Para não fugir à
regra comum a todo o mundo artístico, o meio musical é
fértil na produção de mitos e de mitómanos.
Uns são criados pela necessidade do próprio sistema
de ‘marketing’, outros surgem na esperança de que
o invólucro possa substituir o conteúdo. Arrastadas
por estas circunstâncias surgem por vezes figuras curiosas,
algumas das quais cruzaram mais ou menos fugazmente a minha actividade
profissional.
Natália de Andrade, “cantora lírica” que
passou pelo “O Passeio dos Alegres” do Júlio Isidro
e faleceu há alguns anos, foi uma personagem curiosíssima
cuja história daria um romance. Cantando de maneira que nem
o melhor caricaturista conseguiria imitar, afirmava convictamente
“há duas grandes cantoras líricas no mundo, eu
e a Callas”.
Todavia a figura mais interessante foi, sem dúvida, a de Vítor
Peter, de quem se encontram muitas referências na Internet,
e que se tornou conhecido do grande público aquando da sua
ida ao programa Herman SIC. Aí cantou (?) o seu grande êxito
“Goodbye Maria Ivone” de que muitos estarão lembrados.
Afirmava ser o único artista Rock que cantava em estereofónico
e exibia um palmarés fabuloso: Sendo íntimo das maiores
vedetas enchia qualquer casa de espectáculos desde o Royal
Albert Hall até aos grandes auditórios da Califórnia.
Descrevia-me um destes sucessos norte-americanos no qual tinha tido
a primeira parte do seu espectáculo preenchida com a actuação
do Frank. Perguntando-lhe eu se se referia ao Sinatra respondeu que…
claro!
Tempos houve em que me telefonava com frequência convidando-me
a dirigir um espectáculo dele no Estádio do Restelo.
O preço não seria obstáculo porque o sucesso
era, como de costume, garantido. A sua grande dúvida era se
deveríamos fazer o concerto com um sexteto ou com uma orquestra
sinfónica.
Fiquei sempre com a dúvida se éramos nós a rir
dele ou se era ele que, lá no fundo, ria do nosso riso.
História
com voz e guitarra
Há dias,
numa conversa entre amigos, estivemos a relembrar dois músicos
que tantas saudades nos deixaram – o Adriano Correia de Oliveira
e o Carlos Paredes. Por entre as diversas histórias que íamos
desfiando ocorreu-me às tantas uma engraçadíssima
situação por mim presenciada e que, envolvendo os dois,
marca com nitidez alguns aspectos da personalidade de cada um.
Estávamos no estúdio da Polisom, em Campolide, a gravar
uma canção em que o Adriano era acompanhado pelo Paredes.
Era uma balada com o andamento muito fluido, com paragens e acelerações,
e que por esse facto tinha de ser gravada ‘live on tape’,
ou seja, como se fosse em concerto, não sendo possível
corrigir um erro com um segundo ‘take’.
Como ambos estavam pouco seguros iam-se sucedendo sem resultado as
tentativas de um ‘take’ perfeito. Uma vez um, outra vez
o outro, havia sempre um engano ou uma hesitação que
os obrigavam a voltar ao princípio.
O cansaço e os nervos começaram a acumular-se até
que foi resolvido parar quinze minutos para um café e um pouco
de descontracção.
Voltámos ao estúdio com a inevitável palavra
de ordem “agora é que é!” mesmo que, como
também habitualmente, dita sem grande convicção.
No entanto logo à primeira tentativa tudo começou a
correr bem. Víamos os “calvários” (assim
chamam os músicos às passagens mais difíceis)
a ser ultrapassados sem qualquer fífia e o final da canção
aproximava-se com crescente ansiedade dentro da cabine. Os últimos
compassos estavam já perto e tudo estava a soar bem. O Adriano
ataca a última sílaba com voz segura, o Paredes faz
a cadência final e termina com um poderoso harpejo. E com a
sua guitarra ainda em plena vibração diz com ar triunfante
– “ó amigo Adriano, olhe que esta saiu mesmo bem”.
Já não
me lembro se foi possível regravar e colar só o final
ou se teve de ser tudo gravado de novo. Lembro, sim, que meses depois
ainda o Carlos Paredes nos pedia desculpa da sua inexperiência
que nos tinha obrigado a gastar mais algum tempo de estúdio,
enquanto o Adriano afirmava pela enésima vez que até
tinha sido bom porque aquele primeiro final não lhe tinha saído
muito bem.
Jogo de espelhos
O espectáculo “Só
Nós Três”, que eu produzi conjuntamente com o Paulo
de Carvalho, o Fernando Tordo e o Carlos Mendes, apesar do seu sucesso
retumbante não se manteve na estrada muito tempo. Isso deveu-se
à dificuldade em compatibilizar os compromissos de cada um
com um calendário que se adivinhava tornar-se extremamente
absorvente. Mas a dúzia e meia de espectáculos que fizemos
foi suficiente para produzir um rico anedotário que vem à
baila nos encontros que nos unem de vez em quando. Uma das situações
mais bizarras surgiu logo na estreia, que teve lugar no Casino Estoril
com a sala em lotação esgotada.
Ao intervalo encontrámo-nos, eu e os cantores, no camarim para
fazer um primeiro ponto da situação. Eu ia optimista
porque a reacção do público tinha sido fantástica
e, tanto quanto me apercebia, tudo tinha corrido como planeado.
Com grande surpresa minha encontro o Tordo zangadíssimo e,
mal me vê, a descarregar a sua preocupação.
- Ó Osório, tens de falar com o pessoal da sala. Para
além de ser uma falta de respeito inqualificável, assim
nós no palco não conseguimos concentrar-nos. É
inadmissível. Estão a gozar connosco.
- Mas o que é que se passa – pergunto eu – acho
que não podia estar a correr melhor do que isto.
- Pois, isso dizes tu que não estás virado para o público.
É por isso que não viste que a malta lá do fundo
não parou quieta, acendiam e apagavam luzes, andavam de um
lado para o outro… um inferno. Deve ser malta das borlas e se
não estão a gostar o melhor é porem-se a andar.
Disse isto secundado, embora com menor veemência, pelos outros
dois.
A minha primeira reacção foi de espanto por não
ter dado por nada e de preocupação porque aquilo era
mau e eu precisava dos cantores confiantes e satisfeitos para a segunda
parte. Já ia chamar o senhor Joaquim para lhe pedir que me
resolvesse o problema de qualquer maneira, mas logo dei uma palmada
na testa e desatei a rir. É que a “malta lá do
fundo”, percebi eu, era o público que se encontrava nos
varandins que a sala possui e vão subindo em anfiteatro. Cada
varandim tem a frente espelhada e o que o Fernando Tordo tinha visto
e tanto o tinha incomodado não era mais do que o reflexo das
luzes e do movimento do palco. O público, como confirmei logo
pelo chefe da sala, estava entusiasmado e atento até à
última fila.
Eu nunca simpatizara com aqueles espelhos mas jamais me tinha ocorrido
que pudessem causar um efeito tão inesperado para quem não
estivesse a eles habituado.
A origem
da música
Algures nos anos 70, nos
tempos em que tudo se discutia obsessivamente, dei comigo, ao fim
de um dia de trabalho, numa discussão sobre os caminhos da
música contemporânea com o Jorge Peixinho e o Álvaro
Cassutto, no apartamento deste último em Cascais.
Não me recordo do âmbito da conversa nem das conclusões
a que chegámos – e naquela altura chegava-se sempre a
conclusões mais ou menos definitivas mesmo que só perdurassem
vinte e quatro horas – mas ficou-me na memória uma saída
genial do Jorge que, para além de músico de uma criatividade
inesgotável, era possuidor de um sentido de humor afiado e
desconcertante.
Discutíamos o caminho que deveria tomar a música erudita;
se o da desconstrução iniciada com a música concreta
e mais recentemente alimentada pela chegada da música electrónica
ou se o de uma continuidade que não descolasse do ouvinte comum.
O Peixinho defendia calorosamente o primeiro enquanto o Cassutto,
com menos calor mas com igual veemência, defendia o segundo.
Eu, dividido entre o meu desagrado pela proibição autoritária
da melodia e da tonalidade, mesmo que passageiras, e o meu entusiasmo
pelos sintetizadores, pendia ora para um ora para outro lado.
A certa altura, para fundamentar a sua posição, Álvaro
Cassutto lembrou que a origem da música tinha sido o canto,
e que esta origem estava geneticamente inscrita na nossa memória
de modo que não lhe podíamos fugir. Qualquer tentativa
de a apagar estava condenada ao fracasso.
– Alto aí – disse Jorge Peixinho – isso de
a primeira música ter sido o canto é muito discutível.
Eu, por exemplo, vejo a coisa de maneira muito diferente. Imagino
o homem primitivo, descansando à sombra de uma árvore,
fascinado com o estranho som do vento cortado pelos troncos e pelos
montes: ssssssssssssss uuuuuuuuu shhhhhhhhh. O homem terá pensado:
isto é belo, isto é música! Mas para eu produzir
algo semelhante tenho de esperar que se inventem os sintetizadores,
e enquanto isso não é possível o melhor que tenho
a fazer... é cantar.
A pirâmide
invertida
Numa das poucas estações
de rádio onde consigo manter-me mais de 5 minutos ouvi, há
dias, uma hora de programa inteiramente dedicado ao “Sgt. Pepper's
Lonely Hearts Club Band”, por muitos, entre os quais eu, considerado
o melhor álbum de musica popular de sempre. Enquanto me maravilhava
mais uma vez com esta obra-prima dos Beatles fui levado a fazer uma
comparação entre a produção musical dos
anos 60/80 e a actual, bem como entre os mercados musicais de então
e de agora. Juntando alguns dados e confrontando-os chega-se a resultados
que parecem incoerentes e que devem levar-nos a pensar “o que
é que correu mal?”.
Temos hoje um mercado de música muito maior do que naqueles
tempos, mais e melhores meios de difusão, um número
imensamente superior de músicos profissionais que, na generalidade,
são teoricamente mais bem preparados, um público mais
vasto e com mais e melhores acessos à produção
musical. No entanto um álbum com uma qualidade semelhante não
surge há mais de uma década e dificilmente surgirá
nos tempos mais próximos. Vemos também que bandas com
a importância e qualidade dos Beatles, dos Queen, dos Pink Floyd
não têm espaço nos tempos que correm. Os U2 são
os últimos sobreviventes de uma imagem de qualidade que foi
declinando.
Igualmente quanto à qualidade da reprodução de
música gravada. As cadeias de Alta Fidelidade parecem ser uma
coisa do passado enquanto a maior parte dos jovens ouve música
em auscultadores de 10€ ou em colunas de plástico.
No audiovisual parece que as coisas não estão melhores.
A televisão de alta definição está inventada
há anos mas ninguém a usa e a novidade é a TV
através do telemóvel (?) ou o YouTube em que grande
parte dos vídeos esborratam a imagem e o som é fanhoso.
Em resumo, trocou-se a qualidade pela quantidade. Podemos ouvir 10.000
novas canções por mês (quem tem tempo para isso?)
mas com o som esmagado num mp3 só suportável em ‘phones
made in china’ e não encontramos uma única que
possa ser guardada ao lado do “She’s Leaving Home”.
Temos 99 canais no nosso televisor mas o lixo ocupa uma percentagem
cada vez maior.
Tudo isto porque os mercados têm de se expandir continuamente,
fazendo lembrar a pirâmide invertida da D. Branca. E quando
a pirâmide estourar, quem é que vai preso?
Censura tacanha
Nos anos de 1971/72 trabalhei
como director musical numa série de programas do Artur Agostinho
com o título “No tempo em que você nasceu”.
Aí dirigia um conjunto de nome “InClave” constituído
por um grupo vocal de seis elementos – entre os quais estavam
o Herman José, o Fernando Girão e o Carlos Moniz –
e uma secção rítmica.
Fazia parte da configuração do programa a apresentação,
em cada semana, de uma canção inédita composta
a partir de poesias de poetas portugueses do século XX.
A censura mantinha ainda as garras bem afiadas de modo que eu, para
evitar que uma canção fosse cortada pelo lápis
azul, mandava com a necessária antecedência umas quantas
poesias que me interessava musicar para a “Comissão de
Censura” e só iniciava o trabalho de composição
e ensaio depois de receber a lista das que não tinham sido
chumbadas pelos esbirros.
Uma semana houve em que resolvi trabalhar sobre um texto que, por
me parecer inteiramente inocente, não tinha mandado previamente
para a malfadada Comissão. Não me recordo qual era o
autor mas o poema falava de um miúdo, filho de um pescador,
que, enquanto esperava que o pai regressasse da faina, deambulava
pela praia e brincava com os bocados de madeira que encontrava perdidos
na areia esculpindo figuras, para o que utilizava um canivete que
sempre o acompanhava.
Com grande surpresa minha e de toda a equipa de produção,
a poucos dias do programa ir para o ar a poesia veio com a ordem de
“proibida”.
Aflito fui ter com o Artur Agostinho a dar-lhe conta da ocorrência
e a sugerir-lhe que interviesse junto dos censores para que emendassem
a mão. O Artur concordou comigo que tinha de haver ali um erro
porque não havia nada que justificasse aquele corte. Fez os
telefonemas necessários e mandou uma exposição
por escrito com pedido de despacho urgente.
No dia seguinte tínhamos a resposta. Era confirmada a proibição
e explicada a razão: O texto apresentava uma criança
a utilizar uma “arma branca”, o que configurava uma violência
imprópria de um programa de grande audiência. Nessa semana
não houve canção do InClave.
Música
de ginásio
Frequento um excelente
ginásio em Oeiras. Espaço, luz, asseio, variedade de
opções e gente simpática. Só tem um defeito,
a música. Eu sei que este defeito é comum a outros ginásios,
se calhar a todos, mas isso não me leva a conformar-me. A monótona
e repetitivamente vulgar ‘dance music’ a 132 bpm (batidas
por minuto), para além de interferir com o ritmo que cada um
tem nos exercícios que vai fazendo, é o mais rasca subproduto
da história da música. Eu sei que o objectivo é
“dar energia” a quem a ouve, mas a mim enerva-me e desanima-me.
Quem a fabrica não são artistas mas pequenos industriais
da música que se limitam a um trabalho de ‘patch work’.
No essencial fazem colagens de motivos pré-fabricados –
os chamados ‘loops’ – que, repetindo-se as vezes
necessárias, são compatíveis e se podem sobrepor
uns aos outros. Qualquer de vocês, com o software necessário
e dez minutos de aprendizagem, consegue fazer o mesmo, encontrando-se
até em alguns telemóveis versões rudimentares
desse brinquedo.
E se só de brinquedo se tratasse nunca despertaria a minha
animosidade. Vivemos na era dos ‘gadgets’ e nada me move
contra quem resolva coleccioná-los. O que me incomoda e preocupa
é que esses objectos sonoros, que não deveriam ultrapassar
o grupo de amigos íntimos, seja posto à venda como se
de uma criação artística se tratasse, lançando
a confusão e provocando mais alguma erosão cultural.
Como me incomodaria se fosse construído um pincel electrónico
que fizesse pinturas aleatórias e essas pinturas fossem colocadas
em galerias juntamente com obras de arte.
Sou desde há muito um entusiasta das novas tecnologias como
auxiliares da criação artística e um intensivo
utilizador dessas tecnologias no meu trabalho de composição,
mas sou totalmente contra a inversão de papeis em que deixamos
de ser nós os criativos para sermos os veículos da criação
artística automática. E a música de ginásio
aí está para me dar razão.
Há uma expressão muito usada para depreciar uma música
ambiente que é tão má que só serve para
música ambiente e que é a de “música de
elevador”. Pior, muito pior, é a “música
de ginásio”. Há-de morrer como morre tudo o que
não presta, mas entretanto mói.
Um sonho
ou um pesadelo
Que acontecerá à
música em consequência da globalização?
Será que daqui a uns anos temos uma linguagem e um estilo musical
comuns ao mundo inteiro? Ou será que teremos - cada país,
cada região, cada nicho de cultura - o mundo inteiro como palco,
deixando as culturas minoritárias de estar confinadas a um
palco também minoritário?
Qualquer dos quadros - o primeiro um pesadelo, o segundo um sonho
de séculos - é possível. Cabe-nos decidir, e
a Europa está num momento fulcral para dar um contributo que
pode formatar essa decisão.
A Convenção da Unesco sobre a promoção
da diversidade cultural de 2005 defende o caminho do sonho e, uma
vez que foi adoptada pela União Europeia, parece que podemos
estar descansados já que, povos e governantes, estamos todos
a puxar para o mesmo lado.
Parece… mas pode não ser. Pode a Direcção
Geral da Cultura – estou a falar da Comissão Europeia
– apresentar bem intencionados planos de diálogo inter
cultural. Pode o Presidente da mesma Comissão fazer, em fóruns
culturais, belos discursos em que afirma que a diversidade cultural
é a maior riqueza da Europa. Podemos todos, povos e governantes,
repetir isso em uníssono e, mesmo assim, em poucas décadas
enfrentarmos uma situação de catástrofe cultural.
Isto porque a cultura é transversal a todos os Ministérios
e Direcções Gerais e o que a cultura dá pode
a economia tirar. Não pode portanto a DG da Cultura ser pela
diversidade cultural e as DGs da Concorrência ou do Mercado
Interno defenderem um liberalismo desenfreado extensivo, nomeadamente,
ao sector das actividades culturais. Até porque estas DGs são
muito mais poderosas do que a da Cultura que, coitadinha, sempre fica
com as sobras dos orçamentos. Lá como cá.
As afirmações emblemáticas e as promessas redondas
e reconfortantes temos de as aplaudir e, imediatamente, colocar sob
observação, para impedir que sejam sabotadas por afirmações
e promessas feitas a outros.
No caso da música estou atento e, sinceramente, não
muito confiante. E nos outros, será que se passa o mesmo? Se
for será melhor não dormirmos, não vá
dar-se o caso de acordarmos a meio da noite com um pesadelo.
Lugar
aos vivos
No passado mês
de Outubro realizou-se no Teatro Nacional de São Carlos a gala
anual da Sociedade Portuguesa de Autores. Foi um concerto sinfónico,
com a Orquestra Sinfónica Nacional, coro e alguns solistas.
Assim dito parece ter sido um concerto como tantos outros, sem nada
de relevante a não ser a qualidade de todos os participantes.
No entanto foi um acontecimento que, embora sem grandes repercussões
nos média – ou “mídia” (que horror)
como agora já se vai escrevendo – me forneceu matéria
para interessantes reflexões. Vejamos o que teve este concerto
de diferente.
Em primeiro lugar só foi tocada música de autores portugueses.
Dirá o leitor – isso não é muito comum
mas acontece por vezes. Mas eu acrescento que, tirando uma curta abertura
de Bomtempo, tudo o resto era música dos séculos XX
e XXI. Mais, para além de uma obra de Frederico de Freitas,
tudo o resto eram peças recentes de compositores jovens. O
leitor atento poderá ainda afirmar que tem conhecimento de
que, de vez em quando, há um ou outro concerto de música
Portuguesa Contemporânea, e eu direi que é verdade mas
é raro, e mais raro ainda se for música sinfónica.
Porém o mais interessante vem a seguir. Aconteceu que a sala
estava cheia e o público, que não era maioritariamente
constituído por ‘habitués’, aplaudiu, voltou
a aplaudir e gostou! Gostou muito e no fim ouviam-se comentários
de espanto perante a qualidade e a beleza daquelas novidades (três
primeiras audições) escritas por músicos de que
muitos dos presentes desconheciam o nome.
Que conclusões tiro eu deste verdadeiro acontecimento? Pois
que não há razão para a programação
das nossas salas de concertos contar com 90%, ou mais, de obras de
autores que já morreram. Os vivos estão aí prontos
para arrancar aplausos e emocionar o público, mas não
encontram espaço para mostrar o seu trabalho porque esse espaço
está ocupado por mortos. Respeitáveis, alguns geniais,
mas mortos. O respeito e admiração pelos antigos não
deve provocar a asfixia dos contemporâneos.
O Gigante
Amável
Começo com uma pergunta
ao leitor – sabe quem foram os “Gentle Giant”? O
mais certo é que não faça a mínima ideia.
Mas como nem só de Mozart e Jarrett vive a música eu
acho que vale a pena saber e então vou dar-lhe umas dicas.
Se questionar um conhecedor do rock dos anos 70 sobre quais foram
as grandes bandas da década ouvirá nomes como Led Zeppelin,
Queen, Deep Purple ou Genesis. Avance então com a pergunta
“e os Gentle Giant?”. Aí a reacção
mais provável é qualquer coisa do género “é
verdade, já não me lembrava, foram possivelmente os
melhores”. Se o seu interlocutor for um músico pode perguntar-lhe
somente “Gentle Giant o que é?” e a resposta será,
quase de certeza, “a melhor banda dos anos 70, se não
de sempre”.
Aqui sugiro que, caso tenha Internet à mão, faça
uma pausa na leitura, vá ou YouTube, procure Gentle Giant e
escolha logo o primeiro vídeo com o título “Proclamation”.
Ponha o som alto.
...............
E então que me diz? Pois é, isto tem 30 anos, a imagem
está bastante má e o som, comprimido, sem grande qualidade,
mas mesmo assim parece que, passados estes anos todos, ainda está
à frente do nosso tempo!
Acontece isto em todos os ramos da criação. Músicos,
poetas, pintores que demoram anos a ganhar a notoriedade que merecem.
Admito até que com o grande poder que hoje em dia está
concentrado nas chamadas indústrias culturais – uma expressão
que sempre me causa alguma repulsa – este adiar do reconhecimento
possa ser prolongado ‘ad aeternum’.
No caso deste genial grupo de compositores-intérpretes acontece
que eles, todos poli-instrumentistas de sólida formação
teórica, cometeram a proeza de levar a linguagem da música
erudita para o rock, quer utilizando o contraponto quer importando
conceitos de forma quer utilizando a politonalidade ou até
a atonalidade.
Não sei se a breve existência deste grupo, que no entanto
conta com uma forte produção discográfica, se
deveu a algum desalento por não se verem guindados ao nível
de notoriedade a que tinham direito. O facto é que a sua obra
aí ficou, felizmente em boas condições técnicas,
levando-os a ser actualmente uma banda de culto, com admiradores espalhados
por todo o mundo. Eu sou um deles e convido o leitor a ser o próximo.
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