Por falar em música...
Crónicas escritas para a revista 30 DIAS da Cāmara Municipal de Oeiras - página anterior
 
 
 
 

Uma noite inesquecível

Na primavera de 1980 passei uma semana na Holanda acompanhando o Paco Bandeira numa série de espectáculos para emigrantes. Começámos com duas actuações, sexta e sábado, em Amesterdão, seguidas no domingo, salvo erro, em Haia. Na segunda-feira fomos para Roterdão onde tocaríamos só na terça.
Com o dia livre numa cidade que visitava pela primeira vez gastei-o a fazer turismo à minha moda, ou seja, nada de monumentos nem roteiros turísticos. Andar pelas ruas, entrar em cafés, conversar com um vendedor de um mercado, visitar livrarias e lojas de discos, parar um pouco num banco de jardim, enfim, respirar a cidade para lhe conhecer os ruídos e a pulsação.
Ao fim da tarde voltei ao hotel, estoirado, e pensei que nada melhor que um concerto para acabar o dia. Está com sorte, disse-me o recepcionista, porque há aqui perto um auditório onde hoje toca uma orquestra daqui formada há poucos meses. Estendeu-me um roteiro turístico onde li a notícia de um concerto com uma tal “Amsterdam Baroque Orchestra” dirigida por “Ton Koopman”, um ilustre desconhecido para mim.
Tive sorte. A lotação estava esgotada mas a menina da bilheteira, a quem eu tentei convencer de que tinha ido desde Portugal a pé, lá me arranjou um bilhete de um desistente.
Foi a primeira vez que vi uma orquestra com os músicos, todos jovens, tocando sem as tradicionais casacas e vestidos pretos. O flautista solista, de veludo canelado como os músicos de jazz e com uma postura correspondente. O cravista tocando e simultaneamente dirigindo com a cabeça, improvisando as “cadências” e repetindo-as, a pedido de “bis”, inteiramente diferentes. E o público aplaudindo com gritos de entusiasmo como se fosse um concerto de rock-and-roll.
Foi uma noite-revelação que me fez conhecer o que viria a ser um novo conceito de concerto clássico, desenvolvido nos anos seguintes, curiosamente, pelas orquestras de música antiga, da qual Koopman viria a ser um dos mais conceituados intérpretes.


Godspell

Em 1973, com a “Primavera Marcelista” a abanar, mas ainda com força para resistir aos fortes ventos de mudança, um encenador dinamarquês que ensinava no Conservatório Nacional resolveu propor ao empresário Vasco Morgado a montagem de ‘Godspell’, uma belíssima ópera-rock que retomava o tema da vida de Jesus Cristo num ambiente de grande fantasia, por vezes quase circense.
Aceite, em princípio, a proposta, constituiu uma equipa, para a qual eu também fui convidado, com o objectivo de fazer a adaptação através de um trabalho colectivo, uma vez que a peça, ela mesma produto de criação colectiva, propunha um elevado grau de liberdade a qualquer nova versão.
O grupo era formidável. Lembro-me que incluía, por exemplo, o Jorge Palma, o Fernando Pereira, a Maria João, as duas irmãs Mata – na altura ainda alunas do Conservatório – e o Fernando Girão.
Acampámos no teatro Capitólio e começámos a trabalhar com entusiasmo crescente.
Aos poucos a nossa irreverência, picada pelo vanguardismo do encenador, foi introduzindo no espectáculo mensagens libertárias que, directa ou indirectamente, questionavam ou criticavam a ditadura.
Uma tarde, após algumas semanas de trabalho, tivemos a visita do Vasco. Parámos o ensaio e cobrimo-lo com a nossa euforia. Tínhamos ali um sucesso estrondoso, íamos fazer história e ele ia fartar-se de fazer dinheiro.
Espero bem que sim, dizia ele, então deixem-me lá ver o que é que está feito.
Subimos ao palco e mostrámos-lhe, vaidosos, os cerca de 30 minutos que já estavam alinhavados, após o que descemos à plateia e cercámo-lo, ansiosos, para ouvir a opinião do experiente empresário.
Sim senhor, disse ele, isto está muito bom. Gritos e aplausos da nossa parte. Só tem um problema. Silêncio nosso. É que se passarmos o exame da censura, e eu até saberei uns truques para conseguir isso, no dia a seguir à estreia... vamos todos presos.

Passados poucos dias recebemos a notícia, que nos fez chorar e, soubemos depois, o deixou de rastos, de que a peça estava cancelada.


Hierarquia militar vs. hierarquia musical

Quando chegou a minha vez de ir para a tropa e ser mandado para a guerra colonial fui, com grande espanto meu, enfiado num curso de dois meses (?) de Administração Militar. Pouco tempo depois estava a ser enviado para Luanda para dirigir um departamento da Chefia dos Serviços de Contabilidade e Administração. Ficou-me desde sempre a convicção de que algum general se tinha deixado invadir por um momento de humor porque das diversas funções que eu poderia desempenhar num exército esta seria, sem dúvida, aquela para que me encontrava menos vocacionado.
Ao ver-me sentado numa secretária do Quartel-general, rodeado de guias de marcha e de formulários de subvenções de família, hesitei entre deixar-me tomar pelo pânico ou desatar a rir.
Foi então que soube que o pianista da orquestra ligeira do exército estava prestes a acabar a comissão de serviço. Pensei logo que ali estava a salvação minha e dos serviços de administração militar.
Fui falar com o major encarregue dos serviços de apoio ao exército (a denominação seria parecida com esta, creio eu) propondo-lhe que me transferisse do meu cargo, previsivelmente catastrófico, para o de pianista da orquestra, onde podia ser útil e eficaz. A primeira reacção foi de entusiasmo até porque eu, que já era razoavelmente conhecido como músico, poderia dar um bom contributo para a melhoria do moral das tropas. Mas logo veio um “ora bolas, mas isso não é possível!” com efeito de balde de água fria. Seria necessário vir a ordem de Lisboa? perguntei eu. Não, o problema não era esse. O que acontecia era que o maestro da orquestra era um sargento e eu, sendo oficial, não podia tocar sob as ordens dele.
Eu argumentei que na música a hierarquia não se faz assim, que eu ia ser solista e ia ser mais “vedeta” que o sargento, que não ia tocar sob as ordens do sargento mas sob a sua direcção, que se eu fosse dirigir um concerto em que o cantor fosse o Sinatra ele é que seria o chefe e não eu.
Nada a fazer. Tropa é tropa e tem as suas regras e nem a música lhes pode fugir.

Durante dois anos três meses e cinco dias tentei, sem sucesso, ser um razoável oficial de administração. Felizmente havia no meu serviço um sargento que sabia daquilo e assumiu, de comum acordo, a verdadeira chefia do departamento. Mas como de fora ninguém notava não houve qualquer problema.


Encontro às dez-dez-e-um-quarto

O meu amigo e grande músico Luís Pedro Fonseca desfez-se há uns meses do estúdio que dirigiu durante anos e por onde passou o que de melhor há na música portuguesa. Muitas vezes o ouvi queixar-se do principal problema que enfrentava para a rentabilização da empresa e que eram as horas perdidas com os atrasos crónicos dos músicos nacionais, que lhe provocavam um abaixamento da taxa de ocupação.
Como é evidente só se pode começar a trabalhar com um grupo quando chega o último elemento, facto este que, aliado ao nacional-porreirismo que vai sobrevivendo ao espírito europeu, leva o produtor a pedir que só seja cobrado o tempo a partir do início dos trabalhos.
O desperdício decorrente da falta de pontualidade é um problema com que deparo desde sempre, um pouco atenuado nos últimos tempos mas ainda uma imagem de marca da alma lusa. Já houve tempos em que eu reagia aos atrasos com mais veemência do que hoje, o que me leva a recear que tenha sido parcialmente contaminado.
Mas não vá pensar-se que isto se passa só na música. Ainda hoje é rara, nos mais variados sectores, a reunião das 3 que começa antes das 15 e 30. Há sempre o trânsito que estava muito complicado – como se não estivesse sempre – o almoço que demorou mais do que o previsto, ou a reunião das dez e meia que só começou às onze “e me deu cabo dos planos”.
Tenho o hábito de protestar, inutilmente, bem sei, quando me marcam um encontro para as dez-dez-e-um-quarto. Tento reagir perguntando: Mas então é às dez ou às dez e um quarto? Recebo de volta, invariavelmente, um sorriso condescendente
Lembro-me da primeira vez que fui gravar a Madrid. Cheguei ao estúdio Eurosonic poucos minutos antes da hora marcada para o início da sessão, cumprimentei o director técnico, pedi um café e, vendo o bar muito calmo, perguntei pelos músicos. – Estão todos à espera no estúdio - disseram-me. Engoli o café à pressa, acelerei para o salão e ali estavam todos, já com os instrumentos afinados, os microfones colocados, prontos a começar o trabalho.
A explicação da nossa dificuldade em apanhar a Europa talvez passe também por aqui.


Compre o que é nosso

Em 2001 fui a Paris de propósito para assistir a um concerto de um dos mais prestigiados cantautores franceses que, dizia-se, iria abandonar a sua actividade musical. Michel Sardou, quase desconhecido entre nós, tinha então 54 anos e uma carreira longa e prestigiada.
O espectáculo tinha lugar no pavilhão de Bercy onde, com uma lotação de 17.000 lugares, se manteve com casas esgotadas durante 15 dias, com dois espectáculos ao sábado e ao domingo. Em números redondos isto dá mais de 300.000 espectadores e, com bilhetes a preço médio de €55, uma receita bruta de cerca de 16 milhões de euros.
Uma das coisas que me chamou a atenção foi o facto de não haver em Paris um cartaz a anunciar o espectáculo. Soube depois que a publicidade tinha sido toda institucional, à base de notícias justificadas pelo prestígio do artista.
No avião, de regresso a Lisboa, lancei-me num jogo de comparações entre o ambiente da música popular em França e em Portugal. Tomei, por exemplo, três artistas portugueses com idade e carreira semelhantes às de Sardou, a saber, Fernando Tordo, Fausto e Carlos do Carmo. Dividindo o público por 6, uma vez que a população francesa é de 61 milhões e a nossa de pouco mais de 10, imagino qualquer deles a fazer 4 dias de Pavilhão Atlântico com a lotação de 13.000 lugares. Impossível, não arranjariam produtor que arriscasse e caso se metessem em autoprodução o desastre financeiro seria a consequência inevitável. Até porque teriam de encher o país de cartazes, o que lhes comeria uma parte substancial das receitas. Por cá, quatro Pavilhões Atlântico só com artistas estrangeiros (Tony Carreira conseguiu três mas aí a explicação é atípica).
Os artistas seniores em França são uma aposta segura; em Portugal são um risco a evitar.
Mas se passar a comparação para o caso da presença de artistas nacionais no estrangeiro as coisas mudam radicalmente. Aí, com a nossa dúzia e meia de sucessos internacionais, não precisamos de multiplicar por seis para ultrapassar largamente a França.
Agora que se tenta relançar frases do género “o que é português é bom” ou “compre o que é nosso” estas minhas notas podem constituir mais uma dica para integrar a grande e profunda reflexão que, complementarmente à campanha, o país tem de fazer.


Música e petróleo

Há dias as dez maiores empresas mundiais de produtos de tecnologias de informação enviaram uma carta ao presidente da Comissão Europeia exigindo-lhe que retire a pequena importância que alguns dos seus produtos pagam para os autores, de modo a compensá-los das imensas perdas resultantes da cópia digital, lícita ou ilícita. Sendo que aquela importância lhes provoca uma diminuição dos seus fabulosos lucros na ordem dos 0.0x %, o que mais lhes interessa aqui é a música, cujos autores e intérpretes lhes fornecem o combustível que faz mover as suas actividades industriais e comerciais.
Isto põe a descoberto dois problemas do mundo contemporâneo. O primeiro é a sobranceria gananciosa das grandes multinacionais e o segundo a enorme pressão que se abate sobre a criação musical no sentido de a controlar e explorar.
Com efeito nunca a criação musical teve tanta importância como nos nossos dias mas, exactamente por causa disso, nunca correu tantos perigos. A música está presente no nosso quotidiano, na televisão e na rádio, nos restaurantes e nos elevadores, nos ginásios e nos leitores de mp3, nos telefones e nos computadores, nos dentistas e, já agora, nas salas de concertos.
A música é, como o petróleo, um bem essencial de consumo que movimenta milhões e esse facto beneficia, mas também ameaça quem a produz, porque os grandes interesses económicos fazem tudo ao seu alcance para dominar as fontes de produção. O controlo da música tem provocado guerras como a actualmente dirigida pelas grandes empresas contra os autores e os intérpretes, guerras que não são sangrentas como as do petróleo, mas que causam danos culturais imensos, levando a este paradoxo: nunca se produziu tanta e tão boa música como hoje e talvez nunca se tenha ouvido generalizadamente música de tão baixa qualidade.
A grande diferença é que o petróleo um dia acabará mas a música, essa é inesgotável. Mesmo que o presente esteja repleto de ameaças ela acabará por sair vencedora.


A verdade da mentira

Para não fugir à regra comum a todo o mundo artístico, o meio musical é fértil na produção de mitos e de mitómanos. Uns são criados pela necessidade do próprio sistema de ‘marketing’, outros surgem na esperança de que o invólucro possa substituir o conteúdo. Arrastadas por estas circunstâncias surgem por vezes figuras curiosas, algumas das quais cruzaram mais ou menos fugazmente a minha actividade profissional.
Natália de Andrade, “cantora lírica” que passou pelo “O Passeio dos Alegres” do Júlio Isidro e faleceu há alguns anos, foi uma personagem curiosíssima cuja história daria um romance. Cantando de maneira que nem o melhor caricaturista conseguiria imitar, afirmava convictamente “há duas grandes cantoras líricas no mundo, eu e a Callas”.
Todavia a figura mais interessante foi, sem dúvida, a de Vítor Peter, de quem se encontram muitas referências na Internet, e que se tornou conhecido do grande público aquando da sua ida ao programa Herman SIC. Aí cantou (?) o seu grande êxito “Goodbye Maria Ivone” de que muitos estarão lembrados.
Afirmava ser o único artista Rock que cantava em estereofónico e exibia um palmarés fabuloso: Sendo íntimo das maiores vedetas enchia qualquer casa de espectáculos desde o Royal Albert Hall até aos grandes auditórios da Califórnia. Descrevia-me um destes sucessos norte-americanos no qual tinha tido a primeira parte do seu espectáculo preenchida com a actuação do Frank. Perguntando-lhe eu se se referia ao Sinatra respondeu que… claro!
Tempos houve em que me telefonava com frequência convidando-me a dirigir um espectáculo dele no Estádio do Restelo. O preço não seria obstáculo porque o sucesso era, como de costume, garantido. A sua grande dúvida era se deveríamos fazer o concerto com um sexteto ou com uma orquestra sinfónica.
Fiquei sempre com a dúvida se éramos nós a rir dele ou se era ele que, lá no fundo, ria do nosso riso.


História com voz e guitarra

Há dias, numa conversa entre amigos, estivemos a relembrar dois músicos que tantas saudades nos deixaram – o Adriano Correia de Oliveira e o Carlos Paredes. Por entre as diversas histórias que íamos desfiando ocorreu-me às tantas uma engraçadíssima situação por mim presenciada e que, envolvendo os dois, marca com nitidez alguns aspectos da personalidade de cada um.
Estávamos no estúdio da Polisom, em Campolide, a gravar uma canção em que o Adriano era acompanhado pelo Paredes. Era uma balada com o andamento muito fluido, com paragens e acelerações, e que por esse facto tinha de ser gravada ‘live on tape’, ou seja, como se fosse em concerto, não sendo possível corrigir um erro com um segundo ‘take’.
Como ambos estavam pouco seguros iam-se sucedendo sem resultado as tentativas de um ‘take’ perfeito. Uma vez um, outra vez o outro, havia sempre um engano ou uma hesitação que os obrigavam a voltar ao princípio.
O cansaço e os nervos começaram a acumular-se até que foi resolvido parar quinze minutos para um café e um pouco de descontracção.
Voltámos ao estúdio com a inevitável palavra de ordem “agora é que é!” mesmo que, como também habitualmente, dita sem grande convicção.
No entanto logo à primeira tentativa tudo começou a correr bem. Víamos os “calvários” (assim chamam os músicos às passagens mais difíceis) a ser ultrapassados sem qualquer fífia e o final da canção aproximava-se com crescente ansiedade dentro da cabine. Os últimos compassos estavam já perto e tudo estava a soar bem. O Adriano ataca a última sílaba com voz segura, o Paredes faz a cadência final e termina com um poderoso harpejo. E com a sua guitarra ainda em plena vibração diz com ar triunfante – “ó amigo Adriano, olhe que esta saiu mesmo bem”.

Já não me lembro se foi possível regravar e colar só o final ou se teve de ser tudo gravado de novo. Lembro, sim, que meses depois ainda o Carlos Paredes nos pedia desculpa da sua inexperiência que nos tinha obrigado a gastar mais algum tempo de estúdio, enquanto o Adriano afirmava pela enésima vez que até tinha sido bom porque aquele primeiro final não lhe tinha saído muito bem.


Jogo de espelhos

O espectáculo “Só Nós Três”, que eu produzi conjuntamente com o Paulo de Carvalho, o Fernando Tordo e o Carlos Mendes, apesar do seu sucesso retumbante não se manteve na estrada muito tempo. Isso deveu-se à dificuldade em compatibilizar os compromissos de cada um com um calendário que se adivinhava tornar-se extremamente absorvente. Mas a dúzia e meia de espectáculos que fizemos foi suficiente para produzir um rico anedotário que vem à baila nos encontros que nos unem de vez em quando. Uma das situações mais bizarras surgiu logo na estreia, que teve lugar no Casino Estoril com a sala em lotação esgotada.
Ao intervalo encontrámo-nos, eu e os cantores, no camarim para fazer um primeiro ponto da situação. Eu ia optimista porque a reacção do público tinha sido fantástica e, tanto quanto me apercebia, tudo tinha corrido como planeado.
Com grande surpresa minha encontro o Tordo zangadíssimo e, mal me vê, a descarregar a sua preocupação.
- Ó Osório, tens de falar com o pessoal da sala. Para além de ser uma falta de respeito inqualificável, assim nós no palco não conseguimos concentrar-nos. É inadmissível. Estão a gozar connosco.
- Mas o que é que se passa – pergunto eu – acho que não podia estar a correr melhor do que isto.
- Pois, isso dizes tu que não estás virado para o público. É por isso que não viste que a malta lá do fundo não parou quieta, acendiam e apagavam luzes, andavam de um lado para o outro… um inferno. Deve ser malta das borlas e se não estão a gostar o melhor é porem-se a andar.
Disse isto secundado, embora com menor veemência, pelos outros dois.
A minha primeira reacção foi de espanto por não ter dado por nada e de preocupação porque aquilo era mau e eu precisava dos cantores confiantes e satisfeitos para a segunda parte. Já ia chamar o senhor Joaquim para lhe pedir que me resolvesse o problema de qualquer maneira, mas logo dei uma palmada na testa e desatei a rir. É que a “malta lá do fundo”, percebi eu, era o público que se encontrava nos varandins que a sala possui e vão subindo em anfiteatro. Cada varandim tem a frente espelhada e o que o Fernando Tordo tinha visto e tanto o tinha incomodado não era mais do que o reflexo das luzes e do movimento do palco. O público, como confirmei logo pelo chefe da sala, estava entusiasmado e atento até à última fila.
Eu nunca simpatizara com aqueles espelhos mas jamais me tinha ocorrido que pudessem causar um efeito tão inesperado para quem não estivesse a eles habituado.


A origem da música

Algures nos anos 70, nos tempos em que tudo se discutia obsessivamente, dei comigo, ao fim de um dia de trabalho, numa discussão sobre os caminhos da música contemporânea com o Jorge Peixinho e o Álvaro Cassutto, no apartamento deste último em Cascais.
Não me recordo do âmbito da conversa nem das conclusões a que chegámos – e naquela altura chegava-se sempre a conclusões mais ou menos definitivas mesmo que só perdurassem vinte e quatro horas – mas ficou-me na memória uma saída genial do Jorge que, para além de músico de uma criatividade inesgotável, era possuidor de um sentido de humor afiado e desconcertante.
Discutíamos o caminho que deveria tomar a música erudita; se o da desconstrução iniciada com a música concreta e mais recentemente alimentada pela chegada da música electrónica ou se o de uma continuidade que não descolasse do ouvinte comum.
O Peixinho defendia calorosamente o primeiro enquanto o Cassutto, com menos calor mas com igual veemência, defendia o segundo. Eu, dividido entre o meu desagrado pela proibição autoritária da melodia e da tonalidade, mesmo que passageiras, e o meu entusiasmo pelos sintetizadores, pendia ora para um ora para outro lado.
A certa altura, para fundamentar a sua posição, Álvaro Cassutto lembrou que a origem da música tinha sido o canto, e que esta origem estava geneticamente inscrita na nossa memória de modo que não lhe podíamos fugir. Qualquer tentativa de a apagar estava condenada ao fracasso.
– Alto aí – disse Jorge Peixinho – isso de a primeira música ter sido o canto é muito discutível. Eu, por exemplo, vejo a coisa de maneira muito diferente. Imagino o homem primitivo, descansando à sombra de uma árvore, fascinado com o estranho som do vento cortado pelos troncos e pelos montes: ssssssssssssss uuuuuuuuu shhhhhhhhh. O homem terá pensado: isto é belo, isto é música! Mas para eu produzir algo semelhante tenho de esperar que se inventem os sintetizadores, e enquanto isso não é possível o melhor que tenho a fazer... é cantar.


A pirâmide invertida

Numa das poucas estações de rádio onde consigo manter-me mais de 5 minutos ouvi, há dias, uma hora de programa inteiramente dedicado ao “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”, por muitos, entre os quais eu, considerado o melhor álbum de musica popular de sempre. Enquanto me maravilhava mais uma vez com esta obra-prima dos Beatles fui levado a fazer uma comparação entre a produção musical dos anos 60/80 e a actual, bem como entre os mercados musicais de então e de agora. Juntando alguns dados e confrontando-os chega-se a resultados que parecem incoerentes e que devem levar-nos a pensar “o que é que correu mal?”.
Temos hoje um mercado de música muito maior do que naqueles tempos, mais e melhores meios de difusão, um número imensamente superior de músicos profissionais que, na generalidade, são teoricamente mais bem preparados, um público mais vasto e com mais e melhores acessos à produção musical. No entanto um álbum com uma qualidade semelhante não surge há mais de uma década e dificilmente surgirá nos tempos mais próximos. Vemos também que bandas com a importância e qualidade dos Beatles, dos Queen, dos Pink Floyd não têm espaço nos tempos que correm. Os U2 são os últimos sobreviventes de uma imagem de qualidade que foi declinando.
Igualmente quanto à qualidade da reprodução de música gravada. As cadeias de Alta Fidelidade parecem ser uma coisa do passado enquanto a maior parte dos jovens ouve música em auscultadores de 10€ ou em colunas de plástico.
No audiovisual parece que as coisas não estão melhores. A televisão de alta definição está inventada há anos mas ninguém a usa e a novidade é a TV através do telemóvel (?) ou o YouTube em que grande parte dos vídeos esborratam a imagem e o som é fanhoso.
Em resumo, trocou-se a qualidade pela quantidade. Podemos ouvir 10.000 novas canções por mês (quem tem tempo para isso?) mas com o som esmagado num mp3 só suportável em ‘phones made in china’ e não encontramos uma única que possa ser guardada ao lado do “She’s Leaving Home”. Temos 99 canais no nosso televisor mas o lixo ocupa uma percentagem cada vez maior.
Tudo isto porque os mercados têm de se expandir continuamente, fazendo lembrar a pirâmide invertida da D. Branca. E quando a pirâmide estourar, quem é que vai preso?


Censura tacanha

Nos anos de 1971/72 trabalhei como director musical numa série de programas do Artur Agostinho com o título “No tempo em que você nasceu”. Aí dirigia um conjunto de nome “InClave” constituído por um grupo vocal de seis elementos – entre os quais estavam o Herman José, o Fernando Girão e o Carlos Moniz – e uma secção rítmica.
Fazia parte da configuração do programa a apresentação, em cada semana, de uma canção inédita composta a partir de poesias de poetas portugueses do século XX.
A censura mantinha ainda as garras bem afiadas de modo que eu, para evitar que uma canção fosse cortada pelo lápis azul, mandava com a necessária antecedência umas quantas poesias que me interessava musicar para a “Comissão de Censura” e só iniciava o trabalho de composição e ensaio depois de receber a lista das que não tinham sido chumbadas pelos esbirros.
Uma semana houve em que resolvi trabalhar sobre um texto que, por me parecer inteiramente inocente, não tinha mandado previamente para a malfadada Comissão. Não me recordo qual era o autor mas o poema falava de um miúdo, filho de um pescador, que, enquanto esperava que o pai regressasse da faina, deambulava pela praia e brincava com os bocados de madeira que encontrava perdidos na areia esculpindo figuras, para o que utilizava um canivete que sempre o acompanhava.
Com grande surpresa minha e de toda a equipa de produção, a poucos dias do programa ir para o ar a poesia veio com a ordem de “proibida”.
Aflito fui ter com o Artur Agostinho a dar-lhe conta da ocorrência e a sugerir-lhe que interviesse junto dos censores para que emendassem a mão. O Artur concordou comigo que tinha de haver ali um erro porque não havia nada que justificasse aquele corte. Fez os telefonemas necessários e mandou uma exposição por escrito com pedido de despacho urgente.
No dia seguinte tínhamos a resposta. Era confirmada a proibição e explicada a razão: O texto apresentava uma criança a utilizar uma “arma branca”, o que configurava uma violência imprópria de um programa de grande audiência. Nessa semana não houve canção do InClave.


Música de ginásio

Frequento um excelente ginásio em Oeiras. Espaço, luz, asseio, variedade de opções e gente simpática. Só tem um defeito, a música. Eu sei que este defeito é comum a outros ginásios, se calhar a todos, mas isso não me leva a conformar-me. A monótona e repetitivamente vulgar ‘dance music’ a 132 bpm (batidas por minuto), para além de interferir com o ritmo que cada um tem nos exercícios que vai fazendo, é o mais rasca subproduto da história da música. Eu sei que o objectivo é “dar energia” a quem a ouve, mas a mim enerva-me e desanima-me.
Quem a fabrica não são artistas mas pequenos industriais da música que se limitam a um trabalho de ‘patch work’. No essencial fazem colagens de motivos pré-fabricados – os chamados ‘loops’ – que, repetindo-se as vezes necessárias, são compatíveis e se podem sobrepor uns aos outros. Qualquer de vocês, com o software necessário e dez minutos de aprendizagem, consegue fazer o mesmo, encontrando-se até em alguns telemóveis versões rudimentares desse brinquedo.
E se só de brinquedo se tratasse nunca despertaria a minha animosidade. Vivemos na era dos ‘gadgets’ e nada me move contra quem resolva coleccioná-los. O que me incomoda e preocupa é que esses objectos sonoros, que não deveriam ultrapassar o grupo de amigos íntimos, seja posto à venda como se de uma criação artística se tratasse, lançando a confusão e provocando mais alguma erosão cultural. Como me incomodaria se fosse construído um pincel electrónico que fizesse pinturas aleatórias e essas pinturas fossem colocadas em galerias juntamente com obras de arte.
Sou desde há muito um entusiasta das novas tecnologias como auxiliares da criação artística e um intensivo utilizador dessas tecnologias no meu trabalho de composição, mas sou totalmente contra a inversão de papeis em que deixamos de ser nós os criativos para sermos os veículos da criação artística automática. E a música de ginásio aí está para me dar razão.
Há uma expressão muito usada para depreciar uma música ambiente que é tão má que só serve para música ambiente e que é a de “música de elevador”. Pior, muito pior, é a “música de ginásio”. Há-de morrer como morre tudo o que não presta, mas entretanto mói.


Um sonho ou um pesadelo

Que acontecerá à música em consequência da globalização? Será que daqui a uns anos temos uma linguagem e um estilo musical comuns ao mundo inteiro? Ou será que teremos - cada país, cada região, cada nicho de cultura - o mundo inteiro como palco, deixando as culturas minoritárias de estar confinadas a um palco também minoritário?
Qualquer dos quadros - o primeiro um pesadelo, o segundo um sonho de séculos - é possível. Cabe-nos decidir, e a Europa está num momento fulcral para dar um contributo que pode formatar essa decisão.
A Convenção da Unesco sobre a promoção da diversidade cultural de 2005 defende o caminho do sonho e, uma vez que foi adoptada pela União Europeia, parece que podemos estar descansados já que, povos e governantes, estamos todos a puxar para o mesmo lado.
Parece… mas pode não ser. Pode a Direcção Geral da Cultura – estou a falar da Comissão Europeia – apresentar bem intencionados planos de diálogo inter cultural. Pode o Presidente da mesma Comissão fazer, em fóruns culturais, belos discursos em que afirma que a diversidade cultural é a maior riqueza da Europa. Podemos todos, povos e governantes, repetir isso em uníssono e, mesmo assim, em poucas décadas enfrentarmos uma situação de catástrofe cultural.
Isto porque a cultura é transversal a todos os Ministérios e Direcções Gerais e o que a cultura dá pode a economia tirar. Não pode portanto a DG da Cultura ser pela diversidade cultural e as DGs da Concorrência ou do Mercado Interno defenderem um liberalismo desenfreado extensivo, nomeadamente, ao sector das actividades culturais. Até porque estas DGs são muito mais poderosas do que a da Cultura que, coitadinha, sempre fica com as sobras dos orçamentos. Lá como cá.
As afirmações emblemáticas e as promessas redondas e reconfortantes temos de as aplaudir e, imediatamente, colocar sob observação, para impedir que sejam sabotadas por afirmações e promessas feitas a outros.
No caso da música estou atento e, sinceramente, não muito confiante. E nos outros, será que se passa o mesmo? Se for será melhor não dormirmos, não vá dar-se o caso de acordarmos a meio da noite com um pesadelo.


Lugar aos vivos

No passado mês de Outubro realizou-se no Teatro Nacional de São Carlos a gala anual da Sociedade Portuguesa de Autores. Foi um concerto sinfónico, com a Orquestra Sinfónica Nacional, coro e alguns solistas. Assim dito parece ter sido um concerto como tantos outros, sem nada de relevante a não ser a qualidade de todos os participantes. No entanto foi um acontecimento que, embora sem grandes repercussões nos média – ou “mídia” (que horror) como agora já se vai escrevendo – me forneceu matéria para interessantes reflexões. Vejamos o que teve este concerto de diferente.
Em primeiro lugar só foi tocada música de autores portugueses. Dirá o leitor – isso não é muito comum mas acontece por vezes. Mas eu acrescento que, tirando uma curta abertura de Bomtempo, tudo o resto era música dos séculos XX e XXI. Mais, para além de uma obra de Frederico de Freitas, tudo o resto eram peças recentes de compositores jovens. O leitor atento poderá ainda afirmar que tem conhecimento de que, de vez em quando, há um ou outro concerto de música Portuguesa Contemporânea, e eu direi que é verdade mas é raro, e mais raro ainda se for música sinfónica.
Porém o mais interessante vem a seguir. Aconteceu que a sala estava cheia e o público, que não era maioritariamente constituído por ‘habitués’, aplaudiu, voltou a aplaudir e gostou! Gostou muito e no fim ouviam-se comentários de espanto perante a qualidade e a beleza daquelas novidades (três primeiras audições) escritas por músicos de que muitos dos presentes desconheciam o nome.
Que conclusões tiro eu deste verdadeiro acontecimento? Pois que não há razão para a programação das nossas salas de concertos contar com 90%, ou mais, de obras de autores que já morreram. Os vivos estão aí prontos para arrancar aplausos e emocionar o público, mas não encontram espaço para mostrar o seu trabalho porque esse espaço está ocupado por mortos. Respeitáveis, alguns geniais, mas mortos. O respeito e admiração pelos antigos não deve provocar a asfixia dos contemporâneos.


O Gigante Amável

Começo com uma pergunta ao leitor – sabe quem foram os “Gentle Giant”? O mais certo é que não faça a mínima ideia. Mas como nem só de Mozart e Jarrett vive a música eu acho que vale a pena saber e então vou dar-lhe umas dicas.
Se questionar um conhecedor do rock dos anos 70 sobre quais foram as grandes bandas da década ouvirá nomes como Led Zeppelin, Queen, Deep Purple ou Genesis. Avance então com a pergunta “e os Gentle Giant?”. Aí a reacção mais provável é qualquer coisa do género “é verdade, já não me lembrava, foram possivelmente os melhores”. Se o seu interlocutor for um músico pode perguntar-lhe somente “Gentle Giant o que é?” e a resposta será, quase de certeza, “a melhor banda dos anos 70, se não de sempre”.
Aqui sugiro que, caso tenha Internet à mão, faça uma pausa na leitura, vá ou YouTube, procure Gentle Giant e escolha logo o primeiro vídeo com o título “Proclamation”. Ponha o som alto.
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E então que me diz? Pois é, isto tem 30 anos, a imagem está bastante má e o som, comprimido, sem grande qualidade, mas mesmo assim parece que, passados estes anos todos, ainda está à frente do nosso tempo!
Acontece isto em todos os ramos da criação. Músicos, poetas, pintores que demoram anos a ganhar a notoriedade que merecem. Admito até que com o grande poder que hoje em dia está concentrado nas chamadas indústrias culturais – uma expressão que sempre me causa alguma repulsa – este adiar do reconhecimento possa ser prolongado ‘ad aeternum’.
No caso deste genial grupo de compositores-intérpretes acontece que eles, todos poli-instrumentistas de sólida formação teórica, cometeram a proeza de levar a linguagem da música erudita para o rock, quer utilizando o contraponto quer importando conceitos de forma quer utilizando a politonalidade ou até a atonalidade.
Não sei se a breve existência deste grupo, que no entanto conta com uma forte produção discográfica, se deveu a algum desalento por não se verem guindados ao nível de notoriedade a que tinham direito. O facto é que a sua obra aí ficou, felizmente em boas condições técnicas, levando-os a ser actualmente uma banda de culto, com admiradores espalhados por todo o mundo. Eu sou um deles e convido o leitor a ser o próximo.